Criada para fazer sucesso, A Dona do Pedaço completa um mês no caminho certo, mas nem tudo é perfeito; confira por quê

Publicado há um ano
Por Renan Vieira
Publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio

A Globo exibe, neste sábado (22), o 30º capítulo de A Dona do Pedaço, sua superprodução das 21 horas, que estreou com a missão de recuperar a audiência da faixa. É a sucessora de O Sétimo Guardião, que não se saiu bem junto ao telespectador e à crítica especializada. Com isso, se criou ainda mais uma grande expectativa para uma nova história de Walcyr Carrasco, o grande criador de sucessos da dramaturgia da Globo na atualidade.

Desde que as primeiras informações sobre a novela saíram, foi possível imaginar uma trama com muitos elementos do folhetim clássico. A disputa entre famílias, em uma terra sem lei, e a tentativa de reverter o ego por meio do amor dos protagonistas foram os ingredientes principais que fisgaram o telespectador nas primeiras sequências, no fictício povoado de Rio Vermelho. Foi uma forma de convidar o telespectador, em grande estilo, para a fase principal da narrativa.

Continua depois da publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio

No entanto, há uma demarcação artística bastante clara entre o que ocorreu na primeira semana e depois. A produção, investiu muito mais naqueles capítulos do que nos de agora, já chegando no 30º. Nessa altura, infelizmente, as externas, em sua maioria, ocorrem na cidade cenográfica em planos mais fechados. O que traz, sem dúvida, um artificialismo para a novela, algo já crônico nas produções da Globo.

Direção acertada

Imagine. Ver Vivi Guedes circulando pela Oscar Freire? Nem pensar. Ou Maria da Paz presa em um congestionamento, depois do expediente, na avenida Faria Lima? De jeito nenhum. Nem existe trânsito na São Paulo de A Dona do Pedaço. É importante dizer que a plástica da novela, apesar de ainda ser coerente com a primeira fase, mudou… Não se nota mais o capricho inicial. Algo natural pelas razões já citadas, mas que não deixa de ser uma perda.

Diretora Amora Mautner, de A Dona do Pedaço, da Globo (Divulgação)

Aliás, se há algo positivo em A Dona do Pedaço é o trabalho de Amora Mautner. Apesar de seguir o já batido e conhecido padrão Globo e não inovar tanto esteticamente, ela consegue com o orçamento disponível e tirar o melhor dos atores, em uma trama que beira o caricato por causa de um texto extremamente explícito. Ainda assim, a equipe da diretora artística consegue, nos detalhes, obter bons desempenhos e complementar uma – talvez necessária – simplicidade irritante dos diálogos.

A Dona do Pedaço chegou em uma era em que a indústria de novelas clama por uma conexão com um público disputadíssimo por diversas fontes de entretenimento. Apesar de o melodrama continuar sendo um fator preponderante na distração do brasileiro, que chega cansado do trabalho ou que se habituou a sintonizar na Globo todas as noites, o gênero vem perdendo um espaço considerável na formação de opinião sobre determinados temas importantes.

Merchandising social

Desde o final dos anos 60, com Beto Rockefeller, na extinta Tupi e, então, anos 70, quando a novela brasileira consolidou sua identidade própria, por meio das criações de Janete Clair e outros, os folhetins passaram a ocupar um papel socioeducativo para a população mais carente de conteúdos artísticos.

Com isso, tramas como a de Agno (Malvino Salvador) – um suposto gay enrustido -, a de Britney (Glamour Garcia), uma transexual – que enfrenta preconceitos – ou mesmo a de Maria da Paz (Juliana Paes) – uma nova rica emergente da pobreza regra no Brasil – são, de certa forma, um merchandising social, que ocupa necessariamente um espaço negligenciado pelo Estado.

Então, vemos uma novela com pitadas de brasilidade no campo social, na cultura popular e, essencialmente, vulgar para alcançar esse mesmo público que ainda busca uma telenovela inspiradora. Isso significa, obviamente, manter essencialmente os ingredientes que determinam a narrativa do gênero, como a mocinha sofredora, o galã salvador, a vilã inescrupulosa, a madame esnobe etc.

Os atores

Dentro de tudo isso, vemos uma Juliana Paes, dando o sangue para personalizar uma Maria da Paz caricata, carismática e pouco engraçada. A atriz tem a força de um público gigantesco e um apoio tremendo do mercado publicitário para carregar a novela. Ela, de fato, é a dona do pedaço. No entanto, não está livre de perder a fatia se seu personagem não evoluir logo.

Por enquanto, evidentemente, a boleira de Paes não dá chances para mais ninguém no núcleo dela brilhar. Veja que Amadeu (Marcos Palmeira), o protagonista masculino, é praticamente decorativo, enquanto Régis (Reynaldo Gianecchini), o antagonista, é pouco interessante enquanto personagem, além de haver problemas de construção artística tanto do roteirista quando do ator. Você vê sustância em Régis?

Josiane (Agatha Moreira) em A Dona do Pedaço (Reprodução)

A vilã Josiane entrega um papel extremamente óbvio, com caras e bocas que convencem dentro de uma narrativa noveleira. Mas pouco impressionam quem espera um desempenho maduro, natural e, ainda, surpreendente. Agatha Moreira faz o feijão com arroz, mas não demonstra força para antagonizar uma personagem da envergadura de Maria da Paz – e repito, construída pelo poder artístico e midiático de Juliana Paes.

Sim, pode ocorrer um desgaste pela disparidade artística, ainda que o autor tente forçar ali uma emoção por meio da rivalidade entre mãe e filha, como ocorreu em outras novelas… Alguém se lembra da Angel (Camila Queiroz) e sua mãe Carolina (Drica Moraes) de Verdade Secretas?

Problemas

A gente pode incluir na lista de desempenhos de interpretação, o ator Malvino Salvador, volto a citá-lo, porque teve 30 capítulos para impressionar, e conseguiu. Só que negativamente. E não é uma cobrança sobre a história de Agno, mas sobre como o artista, de novo, faz o mesmo personagem – ou é ele mesmo -, sem apresentar nuances, novidades, frescor.

Até o sotaque é o mesmo de sempre. Se ele é paulistano, ainda falta explicar porque não fala como um típico – isso ocorre com outros personagens também: oi, Marlene (Suely Franco)? Para piorar, nas cenas dramáticas, Salvador ainda não aparece e, talvez, nem apareça. O papel é bastante interessante a partir de sua premissa, Mas basta saber como Walcyr Carrasco pretende desenvolver a história de um executivo casado com uma mulher e que procura garotos de programa na rua.

Sucesso

Mas o fato e que, mesmo com altos e baixos, bons desempenhos artísticos, atores que ainda não encontraram o tom do personagem, A Dona do Pedaço, desde a sua concepção, é uma telenovela para fazer sucesso. A discussão a seguir deve ser quanto êxito essa produção pode alcançar a partir do seu potencial. No primeiro, mês já deixou no chinelo, pelo menos, as duas novelas anteriores.

O caminho, todo pavimentado pelos criadores diretos e pela própria Globo como um todo, já tem facilitado uma aceitação do público, ainda que haja poréns. Quer queira, quer não… O elenco é carismático, popular e protegido por uma história redonda e sustentada por uma direção inteligente. Até a trilha sonora é escolhida a dedo para despertar empatia no telespectador. No final, quem resiste a uma trama embalada por Evidências? Aguardemos os próximos 30 capítulos.

Publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio