Com trama melodramática, Órfãos da Terra acaba com expectativa de novelão das 21h

Publicado há 2 anos
Por Renan Vieira
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A estreia de Órfãos da Terra foi muito esperada desde que as primeiras informações sobre a trama começaram a ser publicadas pela imprensa. O interesse do público aumentou quando as chamadas começaram a ir ao ar nos intervalos da programação da Globo. O que se viu foi uma superprodução focada, principalmente, na diáspora síria. A partir de uma família daquele país, se vendeu um produto que contaria boas histórias, com doses generosas de realismo.

Os primeiros capítulos apontaram, de fato, uma novela densa, dramática, impactante. Se viu nas redes sociais na internet que a trama poderia ser tranquilamente exibida no horário nobre, porque tinha sustância para isso. Uma novela séria que aborda uma problemática atual e que afeta todo o planeta. Será?

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Em abril, o Observatório da Televisão noticiou que as autoras Thelma Guedes e Duca Rachid falavam que o objetivo do folhetim era apenas o “entretenimento”. E assim tem sido. Apesar do realismo, da boa direção, a trama central, da mocinha virgem, comprada pelo malfeitor libanês Aziz (Herson Capri) para salvar a vida de seu irmão, também foi algo fácil de digerir dentro do que se espera de um melodrama das 18h. No entanto, chamou a atenção o fato do folhetim clássico ter tomado, com muita força, conta de toda a novela.

O fantasioso centro de refugiados

Mesmo com os refugiados sendo mostrados, tudo passou a beirar o artificialismo. O centro de refugiados por exemplo, nunca tem um problema real. Diversas vezes na trama já foi falado sobre as questões financeiras envolvendo o local, que está sempre em seu limite. Mas em todas as ocasiões, há sempre um salvador da pátria, como Teresa (Leona Cavalli), que vendeu jóias de família para doar dinheiro e garantir a sobrevivência do centro.  

Os personagens passaram a viver a partir do local, que foi romantizado ao extremo como um lugar de puro acolhimento, quando a realidade é bem diferente. Em novembro de 2018, a Folha de S. Paulo noticiou sobre um centro de refugiados na capital paulista, que diferente mostrado na trama possui inúmeras, carências, e até casos de violência entre os acolhidos.

A ilusão da novela é tanta que personagens como Bruno (Rodrigo Simas) e Cibele (Guilhermina Libânio), por exemplo, passaram – de forma voluntária – a se dedicar ao centro genericamente como artifício de roteiro, sem que isso acrescentasse às suas histórias.

Protagonista insossa

Laila (Julia Dalavia), de Órfãos da Terra (Reprodução)

Quando Laila surgiu na imprensa como a grande heroína da novela, se esperava um papel forte, maduro, capaz de vencer as adversidades sem a necessidade de um homem ao teu lado. O que se vê na tela é uma mocinha frágil, chorona, dependente do marido Jamil e, ainda por cima, sem função. A maior parte dos personagens não se importa com a mocinha.

O curioso é que, em entrevista ao Observatório da Televisão, em fevereiro, Julia Dalavia divulgou seu personagem com características opostas com o que se vê na TV: “O que eu acho mais interessante da Laila, é que ela é uma mulher num lugar muito forte de heroína. Papéis que geralmente são dado a homens, essa coisa do herói, de enfrentar situações, de se salvar e salvar todo mundo. É muito legal ver mulheres ultimamente recebendo esses papéis, ocupando esse lugar que é importantíssimo”. Mas o que Laila fez de relevante até agora?

O galã

Jamil (Renato Góes) em Órfãos da Terra (Reprodução)

O galã, que poderia proteger, de fato a protagonista e sua família, não consegue enxergar um palmo à sua frente. Ingênuo, passou anos ciente das maldades de Aziz e, tampouco, pôde perceber a malícia alheia. Praticamente todas as vezes em que foi exigido, teve uma postura excessivamente tola, pouco realista para as características iniciais do personagem, que fazia tudo o que o sheik do mal mandava.

Com isso, há uma combinação de protagonistas rosas em uma trama clássica, sem força para carregar as verdades cruas de uma temática como a dos refugiados. As escritoras Duca Rachid e Thelma Guedes preferiram colocar um assunto atual muito de pano de fundo para segurar uma novela com uma trama de caráter mais universal, que facilmente poderia apresentar qualquer outra temática.

Seria possível aproveitar melhor a história de Laila como refugiada, colocar mais empecilhos para quem tem essa condição no Brasil. Os criadores poderiam mostrar com força a questão dos venezuelanos, que impacta muito mais no país, por exemplo. Mas preferiram contar uma história de amor que já foi vista muitas outras vezes.

Núcleos secundários

Por falar nisso, as histórias paralelas são um remendo e não se fazem tão necessárias. Se foram cortadas na edição internacional, por exemplo, não haverá qualquer prejuízo para a trama central. O núcleo envolvendo Abner (Marcelo Médici), Sara (Verônica Debom) e Ali (Mouhamed Harfouch) beira o pastelão e se entende com Mamade (Flávio Migliaccio) e Bóris (Osmar Prado), que não têm nenhum aprofundamento da questão Israel-Palestina.

Sara (Verônica Debom), de Órfãos da Terra (Reprodução)

Outro núcleo cansativo é o de Norberto (Guilherme Fontes) e Valéria (Bia Arantes). Se as autoras pretendiam dar um descanso do drama, ou melhor melodrama, da trama central, conseguem cansar mais ainda com essas histórias pouco naturais.

Se havia uma expectativa, de fato, de que Órfãos da Terra poderia ser uma novela das 21h, isso cai por terra, com cerca de 50 capítulos exibidos, em uma trama simples, tradicional, marcada essencialmente pela romantização e artificialização de uma problemática muito mais profunda.

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