Com Império, Aguinaldo Silva recicla suas próprias ideias

A novela "reaproveita" tramas de Suave Veneno, Duas Caras e Fina Estampa

Publicado em 09/09/2021 20:25
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Rumando para a reta final, a edição especial de Império serviu para evidenciar alguns pontos da trama que podem ter passado despercebidos em sua exibição original. A novela, possivelmente, é a mais “autorreferente” dentre todas as assinadas por Aguinaldo Silva, já que resgata várias ideias já vistas em outras tramas urbanas assinadas pelo novelista.

Por exemplo: Cora (Drica Moraes/Marjorie Estiano) empurrou Fernando (Erom Cordeiro) escada abaixo para eliminá-lo. E, em breve, fará o mesmo com Jurema (Elizângela) e Reginaldo (Flavio Galvão). Trata-se do mesmo procedimento consagrado por Nazaré Tedesco (Renata Sorrah), a grande vilã de Senhora do Destino (2004).

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Com o sucesso de Nazaré, assassinar desafetos empurrando escada abaixo se tornou uma espécie de padrão, que foi visto também em Fina Estampa (2011), na qual Tereza Cristina (Christiane Torloni) fazia o mesmo. Em Duas Caras (2007), Silvia (Alinne Moraes) não empurrou ninguém, mas ela mesma se jogou escada abaixo para acabar com uma festa de aniversário (!).

Outras tramas e personagens de Império também remetem a histórias anteriores de Aguinaldo Silva. A trama central, em que José Alfredo (Alexandre Nero) comanda uma empresa que é disputada pelos filhos, foi livremente inspirada em Rei Lear, de Shakespeare.

Trata-se da mesma inspiração do núcleo familiar central de Suave Veneno (1999), onde o “rei do mármore” Waldomiro (José Wilker) lidava com suas três filhas, entre elas a vilã Maria Regina (Letícia Spiller), que queria a Marmoreal para ela. Falando em Suave Veneno, Eliseu (Rodrigo Santoro) foi preso na trama por falsificar quadros. Orville (Paulo Rocha) passou pela mesma situação em Império.

Ainda em Império, Tuane (Nanda Costa) abandonou o filho com o pai, Elivaldo (Rafael Losso), e fugiu com outro, voltando anos depois tentando reaver a criança. Aos poucos, ela se redime e volta a formar uma família com eles. Tal qual Teodora (Carolina Dieckmann) em Fina Estampa.

Enquanto isso, Robertão (Romulo Neto) abandonou a vida de vagabundagem ao se apaixonar por Érika (Letícia Birkheuer), que o obrigou a trabalhar. O mesmo aconteceu com Benoliel (Armando Babaioff), que vivia dormindo no sofá tal qual Robertão, mas tomou um rumo quando se apaixonou por Fernanda (Júlia Almeida), em Duas Caras. E esses são apenas alguns exemplos.

Cidadezinhas do interior

Curiosamente, Aguinaldo Silva abraçou tramas urbanas após se consagrar como autor de realismo fantástico, com histórias passadas em cidadezinhas do interior. Com o sucesso de Roque Santeiro, escrita com Dias Gomes, Silva deu sequência ao legado com Tieta (1989), Pedra Sobre Pedra (1992), Fera Ferida (1994), A Indomada (1997) e Porto dos Milagres (2001).

Antes de tentar resgatar o estilo em O Sétimo Guardião (2019), o novelista afirmou, numa entrevista, que havia abandonado a fórmula das novelas interioranas por sentir que estava se repetindo. E ele tinha razão. A Indomada e Porto dos Milagres, por exemplo, tinham vários pontos em comum.

O núcleo familiar das mocinhas era praticamente idêntico: Lucia Helena (Adriana Esteves) passou um tempo afastada da cidade, retornando já adulta e encontrando seus tios, a interesseira Altiva (Eva Wilma) e o tio banana Pedro Afonso (Claudio Marzo); o mesmo aconteceu com Lívia (Flavia Alessandra), que retorna à cidade e vive com os tios, a interesseira Augusta Eugênia (Arlette Salles) e o banana Osvaldo (Fulvio Stefaninni). As duas famílias são falidas e veem no casamento da sobrinha a solução para sair do buraco. E este é apenas um exemplo.

Todos os autores veteranos se repetem, é fato. É normal que uma ideia que deu certo numa novela anterior seja retomada na seguinte, com uma ou outra alteração. Mas é interessante notar que Aguinaldo Silva havia abandonado suas novelas interioranas por considerar que estava se repetindo, porém começou a se repetir também em suas tramas urbanas. Império deixou isso claro.

*As informações e opiniões expressas nessa crítica são de total responsabilidade de seu autor e podem ou não refletir a opinião deste veículo.

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