Com explosão de shopping, reprise de Torre de Babel no Viva entra em nova fase e aumenta o mistério

Publicado há 4 anos
Por André Santana
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Na última semana, o canal Viva exibiu uma das cenas mais emblemáticas de Torre de Babel, trama de Silvio de Abreu que a Rede Globo exibiu originalmente em 1998. Trata-se da cena da explosão do Tropical Tower Shopping, principal cenário da trama em seus primeiros capítulos, e que vai pelos ares para alterar a rota da história. O momento em que o empreendimento comercial explode serve, também, para modificar a maneira como o autor passou a contar sua trama policial, em busca de ampliar os índices de audiência do folhetim, que estavam em baixa na época de sua exibição.

O insucesso inicial de Torre de Babel se deu em razão do tom um tanto fora do habitual que Silvio de Abreu imprimiu à sua história, muito mais soturna e com poucos elementos do folhetim tradicional. A reprise no canal Viva serviu para reafirmar esta impressão: Torre de Babel realmente tinha uma proposta muito diferente. Silvio de Abreu vinha do sucesso retumbante de A Próxima Vítima, de 1995, e tratou de pisar mais fundo no enredo policial na nova história. Acabou pagando o preço pela ousadia.

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O plot inicial de Torre de Babel era centrado no contraponto entre César Toledo (Tarcísio Meira), um importante empresário, e José Clementino (Tony Ramos), um sofrido pedreiro. Quando Clementino flagra sua mulher o traindo com dois homens, trata logo de arrancar a vida dela a golpes de pá. Testemunha do crime, César o entrega à polícia, e Clementino é condenado a 20 anos de prisão. Na cadeia, Clementino passa a nutrir um grande ódio e passa a planejar sua vingança. Prestes a deixar a prisão, ele descobre que César vai inaugurar o Tropical Tower Shopping, um suntuoso centro de compras, e decide explodi-lo. Clementino consegue um emprego como segurança do shopping, se aproxima de Clara (Maitê Proença), cunhada de César, e fica a um passo de colocar seu plano em ação. Mas se descobre apaixonado por Clara e acaba desistindo da ação. No entanto, seus planos são roubados e o shopping vai mesmo pelos ares, e Clementino passa a ser o principal suspeito. Instala-se um mistério: afinal, quem explodiu o shopping?

Para contar esta história de mistério, Silvio de Abreu apostou fundo em personagens dúbios. Não ficava muito claro quem era o mocinho e quem era o bandido na trama. César era correto, mas cheio de contradições. Clementino assassinou sua esposa, mas também era vítima de um passado cheio de sofrimento. Além disso, o primeiro capítulo de Torre de Babel foi forte, afugentando o público. Afinal, a cena inicial mostrava justamente Tony Ramos, eterno bom-moço das novelas, matando a esposa a sangue frio. E a cena final mostrava uma invasão de bandidos e traficantes à mansão de César, atirando por todos os lados em busca de Guilherme (Marcello Antony), filho de César e Marta (Gloria Menezes), que tinha problemas com drogas. Foi um chacoalhão e tanto, ainda mais se lembrarmos que Torre de Babel sucedeu Por Amor, uma “trama bossa nova” a la Manoel Carlos.

Por isso, a explosão do Tropical Tower Shopping, além de servir para aumentar o clima de mistério da trama, também serviu para que Silvio de Abreu remanejasse suas peças e passasse a contar sua história num tom mais folhetinesco. Com a audiência em baixa, o autor adiantou a cena da explosão (o shopping deveria ter durado mais alguns capítulos) e promoveu uma “virada” na narrativa. Por isso, surgiram muitas “lendas urbanas” em torno de Torre de Babel. Falou-se que Silvio eliminou na explosão todos os personagens que haviam sido rejeitados pelo público. Não é verdade. As mortes de Rafaela Katz (Christiane Torloni) e de Guilherme, e o desaparecimento de Agenor (Juca de Oliveira), o violento pai de Clementino, já estavam previstos na sinopse. A única morte não programada era a de Leila (Silvia Pfeifer), que formava um casal gay com Rafaela. Na época, a imprensa especulou que, com a morte de Rafaela, Leila passaria a ter um caso com Marta, e o boato foi tomado como verdade pelo público, que rejeitou totalmente a possibilidade. Em entrevista ao livro “Crimes no Horário Nobre”, do jornalista Raphael Scire, Silvio de Abreu afirmou que sua ideia era que Leila e Marta se tornassem grandes amigas, e as pessoas acreditariam que elas teriam um caso. Mas a rejeição a uma história que nem se sabia se aconteceria ou não fez com que o autor alterasse seu plano. Assim, ele optou por manter Rafaela e Leila juntas, e elas acabaram morrendo abraçadas na explosão do shopping. Não sem antes deixar o seu recado: “tudo por causa deste maldito preconceito!” foi a última fala de Rafaela na história.

Depois disso, Torre de Babel passou a ser contada como um folhetim mais tradicional, com heróis e mocinhos mais bem definidos. Com o adiantamento de algumas tramas, Clementino acabou ficando pouco tempo nas vilanias da história. Sua transformação a partir do relacionamento com Clara já era prevista, mas deveria demorar um pouco mais para se desenvolver. Mais humano e menos rancoroso, Clementino acabou passando o bastão da maldade na trama para Ângela Vidal (Claudia Raia). A executiva, séria e masculinizada, nutria uma paixão platônica por Henrique (Edson Celulari), filho mais velho de César. Quando Henrique se aproxima de Celeste (Letícia Sabatella), ex-mulher de seu irmão Guilherme, Silvio de Abreu formava seu melodrama, definindo Henrique e Celeste como os mocinhos românticos. Ângela, assim, foi se tornando cada vez mais fria e calculista, capaz das maiores atrocidades em nome de seu amor por Henrique, e também movida por assuntos mal resolvidos de seu passado, que vão sendo revelados aos poucos. Vale lembrar que a performance de Claudia Raia dividiu opiniões, o que foi bem injusto. Ângela foi uma grande vilã, muito bem defendida pela atriz.

Assim, Torre de Babel viu sua audiência aumentar e terminou a sua trajetória como um grande sucesso de audiência da Globo. E Silvio de Abreu parece que aprendeu uma importante lição, que levou para seus trabalhos posteriores. Se em Torre de Babel, o autor apostou em cena personagens dúbios e, depois, colocou-os mais maniqueístas, em Belíssima (2005) e em Passione (2010), ele fez o contrário: apresentou as histórias como folhetim tradicional e, mais adiante, aumentou a dubiedade de seus personagens e instalou tramas policiais cheias de mistérios. Deu certo em Belíssima, um grande sucesso do início ao fim. Em Passione, o público já não foi tão receptivo (embora a trama tenha sido bem interessante, diga-se).

Por isso, é muito bom que o canal Viva tenha resgatado Torre de Babel e lembrado ao público o quanto ela foi ousada e inventiva. Nos dias de hoje, novelas soturnas e com uma pegada a mais de violência são comuns (tanto que já cansaram), mas, em 1998, aquilo era uma grande novidade. E Silvio foi feliz ao construir personagens tão bem delineados, com tramas muito bem amarradas, dosando com maestria o thriller policial e a comédia rasgada (vista, principalmente, no núcleo Falcão, protagonizado pela impagável Bina, de Claudia Jimenez). É uma trama tão engenhosa, que seu último capítulo consegue amarrar, com muita competência, todas as pontas soltas, dando uma conclusão digna aos mistérios em torno da explosão do shopping. Vale a pena rever.

André Santana é autor do livro “Tele-Visão: A Televisão Brasileira em 10 Anos”, uma publicação da Editora E. B. Ações Culturais, impressa e distribuída pelo site Clube de Autores, e está à venda em versão impressa e e-book, apenas pela internet. É possível adquiri-lo clicando AQUI .

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