Canais de notícias da TV paga prometeram inovar, mas seguem a fórmula do rádio

GloboNews, BandNews, Record News e CNN Brasil pouco usam recursos de imagem

Publicado há 12 dias
Por Christiano Blota
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Eu acompanho, com certa perplexidade, o papel das emissoras de TV paga no Brasil, em especial as de jornalismo. Sou pego de surpresa (embora, como acadêmico, não devesse) porque todas imitam o rádio. Sim, as TVs de hoje – GloboNews, BandNews, Record News e CNN Brasil –, seguem o modelo do rádio. O rádio continua o grande pai ou mãe da comunicação. Para nos limitarmos um pouco ao tempo, não falarmos do rádio desde a sua criação, e fazer um artigo monstruoso e chato, traçarei um paralelo entre os meios de comunicação na década de 1990. 

Escolho a década de 1990 porque muitos dos jornalistas da época migraram do rádio para TV, da TV para rádio, foram para as redes sociais, que chegou para reforçar a informação moderna. Os jovens dos anos 1990 são os experientes jornalistas de hoje, inclusive este colunista, que já estava engajado até o pescoço no mundo do rádio, da TV e foi um dos pioneiros na ALLTV –, emissora que em muito previu o Instagram, Facebook, YouTube e outras mídias sociais.

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Nos anos 1990, o rádio já sabia o papel dele na sociedade: seria um apoio à televisão. Em geral, o rádio AM daria as notícias, em primeira mão, enquanto a TV trataria de reforçar a informação, até por meio do recurso de imagem, às vezes com requintes cinematográficos. A frequência FM, naquele momento, era somente para ouvir música. A notícia comentada e lida no rádio seria detalhada ao ouvinte, principalmente no começo da noite, com a prova viva mostrada pela TV. A famosa frase: “ver para crer”. A regra era chegar em casa e ver na TV a notícia divulgada pelo rádio, que pautava a televisão.

Os repórteres de rádio passaram a perseguir os furos de reportagem. Feliz era o jornalista que falava algo “em primeira mão”, que fazia os concorrentes se morderem de raiva, e a competição melhorava a vida de uma sociedade ávida por novidades políticas, econômicas e sociais. A ausência de rede social e o celular precário fazia com que os repórteres tivessem que checar a notícia, ter certeza absoluta, entrevistar as pessoas envolvidas e só então divulgar o conteúdo. 

O rádio já estava acostumado com surpresas desde o fim da década de 1960, quando a televisão ganhou força e ele foi dado como morto. As famílias não se sentariam mais em volta do amigo rádio para ouvir novelas, notícias, músicas, programas de entretenimento e, claro, o jornalismo. A migração de público do rádio para TV foi gradual e os hábeis donos das empresas, que só tinham o som como recurso, se adaptaram à realidade.

Alguns jogos de futebol não passavam na TV aberta, então, a solução era o rádio – inclusive enquanto a pessoa assistia a um jogo ao vivo, tamanho apego. O guarda noturno não tinha tecnologia para ver TV, então ele ouvia rádio. O rádio se tornou aquele companheiro que conversava com você. Grandes nomes eram adorados no rádio. A pessoa dizia: “hoje aconteceu isso, quero ver o que o fulano vai dizer. Mas depois vou para a TV”. A TV resumia a notícia, o rádio a expandia – tendo como base os jornais impressos, fantásticas fábricas de comunicação. 

Bom, meu artigo é sobre TV paga. Então por que fiquei esse tempo todo falando de rádio? Pelo que você notou: ao explicar o papel do rádio, percebe-se que é exatamente o que a TV paga faz, segue um modelo definido. A GloboNews, com seus debates e comentários infindáveis, tendo como companhia um time poderoso. Todos entram de um lugar específico, por meio de vídeo, mas ficam estáticos. 

A BandNews, emissora que este colunista trabalhou como âncora, mostra determinada matéria e corre atrás de um especialista, que passa horas comentando o assunto, à exaustão, completamente preso a determinado ambiente. A RecordNews reprisa algumas notícias e também se vale de comentários, às vezes para repetir o que foi visto na reportagem e não se aprofundar.

Veio, então, a CNN Brasil. Uma TV com coragem de desafiar o pobre mercado brasileiro, com boas contratações, tecnologia de ponta e… Pasmem! Antes de escrever este artigo, fiquei 50 minutos ouvindo comentários, sem a necessidade de ver a TV. Portanto, eu estava ouvindo rádio. Claro que, em época de coronavírus, a divulgação de imagens fica mais difícil. Mesmo assim, não vi algo diferente do que já existia no mercado.

O legal da CNN Brasil foi que ela deu uma chacoalhada no contexto da comunicação: contratou gente, movimentou a economia, tirou da zona de conforto os empresários que ficavam sentados na cadeira esperando o anunciante. As posições estavam definidas. A GloboNews era líder absoluta. A BandNews e a RecordNews brigavam com força. Mas todas sabiam que teriam uma fatia do comercial e a preguiça é o destino do ser humano.

Com a CNN Brasil, a briga recomeça e se estende pelas redes sociais. Mas, as emissoras acabam no lugar comum, a estagnação. E me pergunto: com a tecnologia maravilhosa de hoje, com câmeras minúsculas, microfones potentes, por que não há um repórter nos bairros principais de cada cidade brasileira? Por que a TV não abraça outras zonas esquecidas do Brasil, enquanto filosofa sobre política de forma genérica? Por que não entra ao vivo em favelas, presídios, jogos de futebol ou hospitais com rapidez, mobilidade, eficiência, pautando o assunto, passando para o âncora, mostrando o dia a dia de um país sufocado pela miséria?

Não adianta citar o coronavírus como o culpado pela mudança de comportamento das emissoras. Todas, exceto a CNN Brasil, puderam mostrar um trabalho mais criativo e dinâmico antes da doença. Quando a epidemia terminar (oro por isso), espero emissoras que façam a diferença e não vivam de migalhas soltas em comentários repetitivos. Meu objetivo não é desprestigiar as TVs. Elas têm profissionais da mais alta capacidade, que contam com a minha admiração – na frente e atrás das câmeras. 

Meu objetivo é ver as mudanças, admirá-las e não falar para meu filho que a diferença entre jornalismo de TV paga e rádio é apenas a imagem… estática.

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