Assopre as fitas, SBT!

Emissora desconhece sua própria história e faz apostas equivocadas

Publicado há 9 dias
Por Cadu Safner
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O SBT caminha para fechar o ano mais cambaleante de sua história. Repleto de escolhas equivocadas que ocasionaram instabilidade na grade, a impressão que fica é a de um cenário devastado pela autodestruição. Parece exagero, mas sabemos que não.

Quando olhamos para o SBT de Hebe Camargo e Gugu Liberato e analisamos o que restou para tocar o barco, concluímos que foram muito mais erros do que acertos. A verdade é que o SBT se descaracterizou ao optar por pela política como entretenimento, mas não seria saudável abrir espaço para tal discussão.

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Gugu e Thalía no Domingo Legal (Reprodução: SBT)

No entanto, como ferida aberta deste ano tão infeliz, o SBT dificilmente vai conseguir apagar da sua história (caso tenha interesse) momentos obscuros.

Bem como quando viu sua imagem ganhar negativamente patamares internacionais após Marcão do Povo, apresentador do Primeiro Impacto, sugerir ao vivo ao Presidente da República Jair Bolsonaro que criasse um “campo de concentração” para abrigar pacientes diagnosticados com o novo coronavírus. Tem como esquecer?

Declarações de Marcão do Povo vira escândalo internacional (Reprodução: Internet)

Mas o estrago foi maior, foi além, e o show do SBT foi ficando cada dia mais sem público. Um esvaziamento que decorreu de consecutivas falhas de direção, e não houve qualquer movimento para ser estancado. Até que a audiência beijou o chão com o indescritível Triturando!

Programa esse que vai do nada a lugar algum e abre espaço para enquetes de embrulhar o estômago. A ideia, ao que dizem por lá, é oferecer distração e divertimento ao público durante a quarentena. Irônico, não?

Gabriel Cartolano no Triturando (Reprodução – SBT)

Numa dessas, às 15h15min, horário em que é transmitido, o SBT questionou por diversas vezes o seu público conservador sobre preferência por volume na calça dos homens, sexo entre animais, morrer enforcado, na cadeira elétrica, por guilhotina, esfaqueado ou envenenado, ou preferência por comunismo, socialismo ou democracia. E você, leitor, sabe muito bem que o nível foi ainda mais baixo, aliás, bem mais baixo, se é que possível!

Talvez o programa mais irrelevante de toda a história da emissora. Um verdadeiro desperdício de talentos. Chris Flores, Gabriel Cartolano, Flor Fernandez e Ana Paula Renault são figuras de apelo e cheias de carisma, não mereciam que tamanha porcaria se tornasse marca em seus currículos. Poderiam ter assoprado as fitas!

Maisa Silva no Programa da Maisa (Divulgação / SBT)

Como se não bastasse a escassez de grandes estrelas, o SBT optou por abrir mão de nomes como Larissa Manoela, Rachel Sheherazade, Maisa Silva, Roberto Cabrini e Lívia Andrade. É ou não é um cenário devastador? Nem mesmo assim o SBT assoprou as fitas.

Preferiu dar mais espaço para o apresentador que se autodenomina ser do povo e firmar na grade enlatados abaixo de qualquer critica como o Alarma TV.

Alarma TV vai ao ar nas madrugadas do SBT (Reprodução: SBT)

A direção da emissora tem total direito (e faz certo) de se reservar para o futuro, é claro! Ainda mais diante de tantos acontecimentos lamentáveis, além do impacto econômico e outras coisas mais.

No entanto, jamais poderiam enterrar o positivismo de seu próprio público e passar com o trator por cima da emoção de quem quer que seja, uma vez que sua história se funde com os valores da família brasileira.

Cena final de As Aventuras de Poliana (Reprodução / Twitter)

A emissora passou parte da pandemia enaltecendo sua estratégia de gravações de novelas, a qual permitiu que As Aventuras de Poliana fosse, durante curto período, a única novela inédita no ar. Adiantou?

A trama concluiu seu ciclo completamente desgastada, duramente criticada e desprestigiada pelas próprias crianças, além da infraestrutura vergonhosa e um enredo pedante. Por fim, o desmonte do setor.

Tudo isso ao mesmo tempo em que os folhetins mexicanos ocuparam (e ainda ocupam) o topo do ranking da audiência do canal, superando SBT Brasil, Programa do Ratinho e Cúmplices de Um Resgate. Parabéns aos envolvidos! Querem mais?

Cena da novela Chiquititas (Reprodução / SBT)

Alguém aí pediu Chiquititas? A estratégia foi tão boa (risos) que a novela das meninas órfãs segue como um dos produtos mais vistos da Netflix; mas não podemos dizer o mesmo de seu desempenho na grade da emissora.

A verdade é que até para reprisar um produto é preciso ter bom senso e uma mente pensante por trás. Mas a falta de criatividade no SBT é um problema antigo. Todos sabemos. Enquanto isso, Scooby Doo e Jackie Chan continuam a bater cartão incessantemente nas sessões de filmes.

Isabella Fiorentino e Arlindo Grund apresentam o Esquadrão da Moda (Gabriel Cardoso / SBT)

E por aí podemos citar o torturante Passa ou Repassa como quadro do Domingo Legal, um Ratinho distante de seu povo, e formatos que não se renovaram, como o Esquadrão da Moda, que esteve lá todo esse tempo, e ninguém sabia da sua existência até ele ser descontinuado.

O programa, que em seus primeiros anos foi muito bem, sai do ar com a promessa de retornar em algum momento num formato de temporada. É aí que eu pergunto: por que não pensaram nisso antes?

Ainda falta o mínimo de investimento no Bom Dia & Cia., não vamos esquecer. Algo novo para Christina Rocha, falta um sábado realmente animado, falta originalidade e muito mais. Não é possível nem dizer que o SBT parou no tempo, porque em outros tempos ele era uma potência… E hoje?

Silvia Abravanel no Bom Dia & Cia (Reprodução – SBT)

O SBT descuida de sua própria história, que se mantém viva como acervo de internet, onde fãs se movimentam para não deixar que suas glórias sejam sobrepostas por situações vexaminosas causadas por interrupções de grade

Como, por exemplo, uma transmissão de live em baixíssima qualidade com Jair Bolsonaro proferindo demagogia religiosa. Ou talvez um concurso sobre coronavírus com prêmio até R$ 5 mil.

Trecho da live de Jair Bolsonaro (Reprodução / SBT)

Fato é que o SBT não aprende e, ao contrário do que possa parecer, essas não são palavras de quem acha que entende de TV, mas a situação pede atenção e faz uma geração inteira de adultos formados e educados por atrações da emissora se preocupar com o que vem por aí.

Porque sim, a emissora deveria cumprir os princípios que estão no artigo 221 da Constituição, ou seja: “ser educativa, artística, cultural e informativa, além de promover a cultura nacional e regional; estimular à produção independente” e por aí vai.

Marisol Ribeiro, Dado Dolabella e Bianca Castanho protagonizaram a novela Cristal, no SBT (Divulgação)

Se não existe capacidade mínima de se criar algo que valha a pena colocar no ar nesse momento, então que assoprem as fitas e nos entreguem o que de melhor a emissora um dia viveu.

Os 40 anos do SBT estão bem próximos, e talvez nem o mais otimista de seus executivos acredite na possibilidade de uma virada a curto prazo. Como dizem: o buraco é muito mais embaixo. Talvez nem uma “arrancada da vitória” teremos; aliás, éramos felizes em 2007 e não sabíamos.

*As informações e opiniões expressas nessa crítica são de total responsabilidade de seu autor e podem ou não refletir a opinião deste veículo.

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