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Assédio na Band Goiás: “o cachorro não está morto”

Publicado em 23/02/2018
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Por Josuá Barroso

As últimas 48 horas foram de comoção e revolta na internet brasileira. Nesta quarta-feira (21), exatamente entre 12h30 e 13h o programa “Os Donos da Bola Goiás” sabatinava uma garota que foi eleita musa do Goiás Esporte Clube e agora disputa o título de Musa do Goianão.

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A essa altura, você provavelmente já sabe que essa “sabatina” gerou indignação pela falta de qualidade das perguntas e você já deve saber também que a TV Goiânia Band decidiu tirar o programa do ar “como prova de que não compactua com o conteúdo veiculado, nem qualquer tipo de discriminação”.

Veja mais: Após escândalo machista, Band intervém em afiliada e tira programa do ar

Mas é exatamente pelo contrário que este artigo está no ar: porque o cachorro não está morto.

A psicóloga clínica Raquel Mello, experiente profissional do ramo de Recursos Humanos, explica  por meio de uma parábola o conceito de “chutar cachorro morto”. No texto que Mello encontrou para basear sua publicação, está posto que quando os lobos se rebelam contra a alcateia eles são expulsos e carregam consigo o “vírus” da rebeldia.

Beto Brasil e seus comentaristas: Os Donos da Bola não volta mais ao ar

Mello desenvolve o raciocínio dizendo que o lobo rebelde não aceita as normas impostas pela sociedade em que vive e mais adiante, a psicóloga alerta que não podemos ser as vítimas da situação e nos tornarmos “cachorros mortos”.

O que o programa esportivo fez ao decidir fazer perguntas de “humor” para a musa, é indiscutivelmente o que a nossa sociedade atual mais tem repreendido nos últimos tempos. Mas o que fez o gestor da crise instalada na emissora após a repercussão incrível da “entrevista” foi se colocar na posição de um “cachorro morto”. Volto à psicóloga para explicar. Segundo Raquel Mello, os lobos rebeldes expulsos de suas alcateias passam a viver em luta enquanto são rejeitados pelos seus pares até conseguirem construir sua própria alcateia ou morrerem tentando. Quando a emissora volta ao ar hoje, noticia que o quadro foi “mal interpretado” e apresenta a ideia de que toda a situação exibida era parte de um planejamento maior e preestabelecido com o objetivo de chamar a atenção para o machismo, é o lobo rebelde tentando formar alcateia (sociedade) própria. É uma tentativa da emissora de convencer as pessoas a se aliarem a ela com o argumento de que toda a revolta dirigida nas redes sociais era um equívoco, um repreendimento desnecessário já que tudo se tratava de um caso pensado.

Mas ninguém acreditou. Ninguém.

E a TV Goiânia Band agiu tirando o programa do ar.  Mas nem assim o cachorro está morto.

O programa em si não constrangeu ninguém. Nem a musa diretamente e nem quem assistia. Programas de TV são entidades abstratas. Um “nome fantasia” não poderia constranger ninguém. Quem age dolosamente são as pessoas. E são as pessoas que, seja nesta emissora ou em qualquer lugar, vão continuar agindo dessa maneira. Punir uma entidade abstrata é inócuo.

Mas o programa acabou e o cachorro não está morto.

Durante todo o dia era esperada uma atitude e muitas pessoas nas redes sociais elogiaram a decisão da emissora de retirar o programa da grade. Na janela entre o final do programa de quarta-feira e até  antes do início do programa de hoje, inúmeras outras ações poderiam ter sido tomadas. Mas a questão é: em que a inexistência de um programa vai colaborar para o combate ao machismo? Não seria melhor se a emissora se comprometesse a dedicar toda semana os tais 5 minutos que a entrevista durou para divulgar ações que combatessem e que propusessem uma reflexão sobre o machismo?

Eu trabalhei na TV Goiânia Band por um longo período. Considero que realizei grandes coisas por lá graças à liberdade que a emissora sempre me concedeu. Hoje vimos que essa liberdade pode ser sim perigosa, não só para a própria emissora como também para o que pretendemos ser em sociedade. Conheço muitos dos profissionais que ainda trabalham na TV Goiânia Band, inclusive os que estão diretamente envolvidos no constrangimento à musa e sei que ninguém acorda num dia de manhã decidido a constranger alguém em plena TV aberta. Essa é uma parte do equívoco e do desrespeito, e para erros desse tipo existem as desculpas assim como existe a justiça para danos morais. Porém, no gerenciamento da crise, o verdadeiro equívoco reside na tentativa de estabelecer um ganho em cima da história. Tentar reverter a situação. Está em optar por uma pretensa esperteza ao invés de optar pela inteligência e sinceridade com o telespectador.

Por fim, a psicóloga Raquel Mello com sua experiência de mais de três mil horas de treinamentos e palestras na área de Recursos Humanos, conclui que “agressores e covardes sempre existirão com máscaras e trajes diferentes, mas você não pode mudá-los. A única coisa que você pode fazer é não se colocar no lugar de vítima. Você é um lobo! Você sabe o que quer, vá e construa o futuro”. E não há confusão nenhuma da minha parte em definir nessa história quem é lobo, quem é cachorro morto e quem é que chuta, porque todos estamos sujeitos a qualquer uma das situações a qualquer tempo. Só não devemos nos esquecer de que colocar o equilíbrio da alcateia em risco, é colocar todo um sistema em risco. Ou seja, respeito ao outro é fundamental seja ele quem for.

Hoje um programa saiu do ar porque houve compreensível comoção e revolta nas redes sociais. Mas o cachorro não está morto. Considere aqui por um minuto que o “cachorro” seja o machismo. Pois bem, também essa semana o Observatório da Televisão repercutiu uma abordagem completamente machista do renomado jornalista Lucas Mendes sobre as vítimas do estuprador de ginastas. O cachorro não está morto. Ele rosna no centro-oeste brasileiro e até entre os arranha-céus de Manhattan.

Caio Blinder, Lucas Mendes e Pedro Andrade no Manhattan Connection (Reprodução/Globo News)

O cachorro não está morto.

Josuá Barroso é jornalista formado, possui anos de prática em produzir programas de telejornalismo, inclusive na TV Goiânia/Band onde considera que certamente errou, mas também acertou muito graças à liberdade e autonomia concedidas pela emissora. Mas avalia que de nada adianta uma liderança-águia, e por tanto focada em liberdade, se na hora que a mãe-águia empurra o filhote do penhasco, o rebento não sabe voar. Ele vai despencar do precipício ou vai puxar o ninho todo junto.

*As informações e opiniões expressas nessa crítica são de total responsabilidade de seu autor e podem ou não refletir a opinião deste veículo.

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