Com protagonista burra, A Dona do Pedaço exige boa vontade do telespectador

Publicado há um ano
Por Fábio Costa
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No ar desde 20 de maio, A Dona do Pedaço começou bem, especialmente em sua primeira fase, que durou uma semana, e em termos de audiência. Não que faça feio: suas médias se mantêm acima dos 30 pontos em São Paulo, a saber, o que para os dias de hoje significa muito. É como 45 ou 50 pontos há coisa de 20 anos, por exemplo. No entanto, a história liderada por Juliana Paes no papel de Maria da Paz já há algum tempo tem exigido paciência e boa vontade dos telespectadores. Protagonista burra em geral provoca revolta e incredulidade. O que não é nada bom para uma produção que mal passou de um quarto dos capítulos previstos.

A ingenuidade de Maria da Paz, ou sua recusa em enxergar o óbvio em relação ao marido Régis (Reynaldo Gianecchini) e à filha Josiane (Agatha Moreira), até matéria no Fantástico rendeu. O chamado “estelionato sentimental”, ou seja, uma situação na qual um namorado ou cônjuge tira vantagens financeiras ou de qualquer natureza do relacionamento, pode render processos na Justiça e é exatamente o que a personagem vivencia na trama escrita por Walcyr Carrasco. Pode até existir na vida real gente enganada como Maria da Paz. Todavia, pessoas cuja ingenuidade beira a burrice como no caso dela já deve ser mais difícil. Caso a protagonista burra da vez estivesse de fato apaixonada por Régis, digamos que suas atitudes se justificassem. No entanto, ela não está, e deixou isso bem claro em conversas com Marlene (Suely Franco).

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Protagonista burra, ou protagonista que deseja mostrar força diante de uma adversidade no amor? Uma vem da outra

Casado e com um filho adolescente, Amadeu diz não poder abandonar Gilda (Heloísa Jorge) porque ela está doente. Essa recusa dele em iniciar enfim uma vida em comum com ela foi o fator determinante para que Maria da Paz caísse na trama articulada por sua própria filha para se apossar de seu patrimônio e… Empregar o dinheiro numa carreira incerta de influencer. Pois é. Só que nem com muito investimento Josiane conseguirá um dia ser uma Vivi Guedes (Paolla Oliveira) caso não tenha, como não tem, elementos a seu favor como desenvoltura, talento e atitude.

Maria da Paz mudou mais em 20 anos do que seria possível
considerar normal

Nos primeiros capítulos de A Dona do Pedaço, Maria da Paz era outra pessoa em relação ao que se viu depois, quando a história teve um salto de 20 anos. Forte, decidida, a moça que levou duas famílias de matadores rivais a uma trégua para viver seu amor por Amadeu (Marcos Palmeira) não parece ser a mesma. Mais madura, ela anda com roupas coloridas e cafonas. Também se deixa levar pelas vontades de uma filha que claramente a detesta e sente vergonha dela. E comete atos de considerável insensatez ao ser levada no papo por um marido bonitão vagabundo. Além disso, ganhou um sotaque antes inexistente. Com toda a certeza, as pessoas mudam em virtude do que lhes ocorre no decorrer da vida. Mas não houve maior motivação para que a novela apresente “duas Marias da Paz” como vemos.

Algumas situações repetitivas de A Dona do Pedaço

Além da sempre renovada credulidade de Maria da Paz nas trapaças de Josiane e Régis, A Dona do Pedaço tem outras situações bastante repetitivas que têm cansado o público. Só para ilustrar, quem deixa de notar que Fabiana (Nathália Dill) diga sempre e para absolutamente qualquer pessoa que “foi criada pelas freiras”, ou variações dessa frase? Ou a insistência de Josiane em ser chamada de Jô, considerando que odeia o nome que a mãe que lhe dera com todo o carinho em homenagem a uma velha amiga do Espírito Santo? A saga de Rock (Caio Castro) pelo patrocínio para sua carreira de lutador e as cenas de chove-e-não-molha do casal formado pelo confeiteiro Abel (Pedro Carvalho) e pela jovem trans Britney (Glamour Garcia) também já giram em círculos. Novelas repetem situações, é normal. Mas essas andam passando do limite.

Novelas mais curtas: uma saída para evitar as “barrigas”?

Dizem os novelistas experientes, como Lauro César Muniz, só
para exemplificar, que novelas mais curtas renderiam mais em termos de
narrativa televisiva e evitariam as famosas “barrigas”, os períodos do miolo em
que nada de muito relevante costuma acontecer ou contribuir para resoluções de
conflitos lançados meses antes. Além disso, uma vez que a longa duração das
novelas é apontada pelas emissoras como necessária para sua viabilidade
financeira, já que elas só se pagam na metade do tempo médio de apresentação,
histórias curtas demandariam custos menores, com elencos enxutos e todo o
resto.

A Dona do Pedaço tem previsão de durar seis meses no ar, com término em novembro. Com dois meses no ar, a novela já tem diversas situações repetitivas. E uma protagonista burra, que chega a irritar com sua elevada candura. Imagine se fossem os tempos de novelas que chegavam a oito, nove meses no ar com facilidade? Walcyr Carrasco já demonstrou que consegue conduzir histórias em capítulos com mais habilidade. Espera-se que nos quatro meses que faltam Maria da Paz volte a ser uma protagonista admirável por sua história de vida. E não alvo da chacota e da revolta da audiência.

*As informações e opiniões expressas nessa crítica são de total
responsabilidade de seu autor e podem ou não refletir a opinião deste veículo.

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