O Outro Lado do Paradoxo: autor e colaboradores da novela parecem não conversar entre si

Publicado há 3 anos
Por Gabriel Vaquer
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Por Josuá Barroso

Uma estrondosa bomba foi detonada no mundo das novelas e o ruído continua a ecoar nas redes sociais entre fãs e críticos da produção das nove. A explosão a que me refiro não foi aquela na mina de esmeraldas, e sim um suposto spoiler de O Outro Lado do Paraíso que teria vazado: há uma personagem transexual na novela.

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Mas por que tanto barulho se na novela anterior um dos maiores acertos de Gloria Perez foi exatamente a abordagem com uma personagem trans?

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É que desta vez a personagem que seria trans dá expediente num bordel. Eu insistiria na questão: mas qual o problema disso?

A explicação é bizarra. Acompanhando o spoiler principal, de que a personagem Desirée (Priscila Assun) é trans, vazou também como o personagem de Anderson Di Rizzi iria o descobrir o segredo. Ao se deitar com a ex-noiva, Juvenal resolveria acender a luz do quarto e num espanto ao ver o que viu gritaria: “É homem!”.

Tudo se torna ainda mais inexplicável ao lembrarmos que a personagem frequentou uma ginecologista pra tentar voltar a ser virgem e até pouco tempo se preocupava exclusivamente com o segredo de ser “quenga”.

O vazamento da reviravolta parece ter sido o ápice da interminável lista de incoerências da novela de Walcyr Carrasco e virou um dos assuntos de TV mais comentados na internet. Cheguei a escrever no meu twitter: “Tenho uma teoria que a novela é escrita a várias mãos (o que não é problema), mas que essas pessoas não se conhecem, não se falam e não assistem o resultado no ar.”

Na verdade não é uma teoria e sim uma ironia. Jamais imaginei que fosse possível haver qualquer falta de comunicação entre escritores de uma mesma obra em uma das emissoras que mais produz telenovelas no mundo.

Renato (Rafael Cardoso) em O Outro Lado do Paraíso (Divulgação/ TV Globo)

Pro meu espanto, ao voltar atrás e mudar a história a justificativa do autor é muito coincidente com a ironia que elaborei dias atrás. Segundo a colunista Patrícia Kogut, de O Globo, Walcyr Carrasco “enviou um adendo se desculpando e depois reescreveu as sequências e justificou avisando que foi um engano de um colaborador”.

Se o que era uma ironia da minha parte passou a ser fato, não custa lembrar que O Outro Lado do Paraíso coleciona incoerências e distorções de roteiro. A mais recente questiona como o médico Renato (Rafael Cardoso) ficou tanto tempo casado com Lívia (Grazi Massafera) sem demonstrar ganância alguma ou tomar qualquer medida para ter pra si as esmeraldas.

Por que ele só resolveu agir ambiciosamente com a volta da Clara, que ele nem sabia que estava viva? Tem ainda a incompreensível passividade da ardilosa vilã da novela em relação à Clara (Bianca Bin). Sophia (Marieta Severo) consegue armar e executar acidentes e assassinatos bem sucedidos sem que jamais tenha tentado nada diretamente contra a sua principal opositora desde que ela ressurgiu dos mortos.

Ou as sequências de cenas no núcleo do doutor Samuel (Eriberto Leão) em relação à sua homossexualidade. São tantas idas e vindas sem a menor preocupação ou verossimilhança com fatos acontecidos na própria trama, que o telespectador não sabe mais o que esperar.

Cido (Rafael Zulu) e Samuel (Eriberto Leão) de O Outro Lado do Paraíso (Divulgação/TV Globo)

Parece mesmo que a equipe de escritores liderada por Carrasco não conversa entre si ou que todos sofrem de perda de memória recente.

Já que Desireé vai continuar mesmo sendo mulher na novela, cabe agora saber qual será o novo grande segredo que a personagem guarda. Em entrevista ao Jornal Extra, a atriz Priscila Assun confirmou que o tal segredo ainda existe, mas que ela nunca soube se esse mistério estava “entre as pernas”.

A escolha de Walcyr Carrasco por uma trama cheia de reviravoltas parece agradar o público que tem garantido excelentes números de audiência à novela. As cenas ganham ares de expectativa comparáveis a último capítulo de novela, mas o autor parece perder o fôlego imediatamente a seguir. Ao criar personagens que sofreriam com a ira da vingança de Clara, Walcyr parece se ocupar pouco com o cuidado do que vem a acontecer na sequência.

O psiquiatra que teve uma vida dupla revelada sofreu com uma desmoralização pública no início e depois a trama se tornou uma pretensa comédia pastelão fazendo com que Samuel perdesse completamente a importância que tinha no drama da personagem principal.

Outro alvo da vingança seriada, o delegado teve um fim trágico. Entretanto todo o emaranhado de personagens criado para esse desfecho agora parece aleatório demais na novela das nove.

O pai biológico da menina Laura (Bella Piero) apareceu e desapareceu em um capítulo, Lorena (Sandra Corveloni) a mãe dela não tem mais nenhum conflito pela frente e até mesmo o drama pessoal de Laura em relação aos traumas perdeu completamente a força depois da trapalhada entre coach, advogada, psicólogos e curandeiros.

O terceiro alvo de Clara, o juiz Gustavo (Luis Melo) foi desmascarado pela mocinha e perdeu o cargo ao mesmo tempo em que perdeu a relevância todo o núcleo dedicado a ambientar a vida corrupta, preconceituosa e imoral do magistrado. É o mesmo núcleo onde aconteceu de nenhum telespectador entender como os personagens poderiam acreditar que uma ginecologista demorou tanto a descobrir a própria gravidez.

Clara (Bianca Bin) e Sophia (Marieta Severo) em O Outro Lado do Paraíso (Divulgação/Globo)

O casamento de Bruno (Caio Paduan) e Tônia (Patrícia Elizardo) só terminou de vez depois que o garimpeiro Zé Victor (Rafael Losso) reivindicou a paternidade do bebê e buscou Tônia de volta pra abandonar dias depois. Pra quê aquela cena então? Mais uma incoerência.

Resta saber se Carrasco guarda na manga um toque de reunir entre os quatro alvos principais de Clara. Poderia ser uma forma pra diminuir o enorme buraco que foi criado entre o triunfo da vingança da personagem com a sequência dos fatos.

Diferente disso, só dá pra supor mesmo que as histórias em O Outro Lado do Paraíso vão sendo completamente esquecidas por uma equipe de colaboradores que não se falam.

Josuá Barroso é jornalista com quase dez anos de experiência em editar e dirigir programas de telejornalismo ao vivo. Como crítico de TV, se aventura a escrever apenas na condição infindável de consumidor de conteúdo. Ainda assim, acredita que nem sempre o consumidor tem razão.

*As informações e opiniões expressas nessa crítica são de total responsabilidade de seu autor e podem ou não refletir a opinião deste veículo.

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