Por que é idiotice dizer que Globo critica Copa América no Brasil por causa do SBT

Imprensa repudiou torneio no país no pico da pandemia, mas só globais foram chamados de "hipócritas"

Publicado em 31/5/2021
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O anúncio da realização da Copa América no Brasil, a duas semanas do início da competição, provocou sucessivas críticas de jornalistas, políticos e cidadãos indignados com as péssimas condições do país para sediar um evento esportivo na pior fase da pandemia de coronavírus. De forma mesquinha, os favoráveis à decisão do presidente Jair Bolsonaro de socorrer a Conmebol reduziram a gravidade da situação a uma briga entre Globo e SBT.

Entre os principais programas esportivos da TV, houve o consenso de que sediar a Copa América no Brasil é inviável do ponto de vista sanitário, motivo pelo qual a Argentina vetou a realização do torneio no país. A outra sede, Colômbia, voltou atrás em função de protestos políticos. Na Band, Denílson chamou o anúncio de “vergonha” durante o Jogo Aberto. Felipe Andreoli reagiu à escolha da Conmebol com ironia na abertura do Globo Esporte: “Como se tivesse tudo uma maravilha”.

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O comentário mais incisivo veio de Luis Roberto durante o Seleção SporTV. Com muita firmeza, lembrou que o governo federal gastou minutos para oferecer o país à Conmebol mas demorou meses para responder o laboratório Pfizer para a compra de vacinas contra o coronavírus.

“Vem a notícia depois da desistência de vários países irmãos, que não têm condições, por causa da pandemia, de realizar a Copa América, e no país que tem a pandemia descontrolada, que levou nove meses para responder a carta da Pfizer e respondeu em dez minutos que ‘vamos fazer a Copa América’. Não é possível, é inaceitável, a sociedade brasileira, a coletividade do futebol e do esporte, nós não podemos aceitar essa decisão, sinceramente. Que se realize, que faça o que eles bem entenderem, que os negacionistas façam caravanas agora à Brasília para ter público na grande final, momento apoteótico dessa porcaria dessa competição! É uma vergonha, um acinte, um tapa na cara dos brasileiros!”, desabafou.

O teor das críticas é claro: se nossos vizinhos não quiseram sediar a Copa América por causa da pandemia, não é possível o Brasil, segundo país com mais mortes por Covid-19 no mundo, aceitar receber os jogos. Entretanto, somente os profissionais da Globo foram rebatidos nas redes sociais com um único berro: “hipocrisia”.

Para os críticos da Globo, a emissora não reclama das Eliminatórias da Copa e das competições nacionais que são transmitidas pela emissora, mas fala mal da Copa América só porque foi comprada pelo SBT. Entrou por um ouvido deles e saiu pelo outro o simples fato de que o país mais letal da pandemia no continente aceitou sediar um evento esportivo após outras nações desistirem para proteger seu povo do vírus que o torneio inevitavelmente ajudará a propagar (até porque a final tem previsão de público no estádio).

Comparar a Copa América, que demanda dezenas de viagens e jogos em um curto período, às Eliminatórias, que já estavam paralisadas em função da pandemia e têm intervalo maior entre partidas, é, no mínimo, canalhice. Além disso, é muito fácil encontrar opiniões de profissionais da Globo contra os protocolos da CBF e das federações para o Campeonato Brasileiro e competições estaduais, mesmo eles sendo detentores exclusivos da exibição na TV.

Reduzir as críticas da imprensa contra a vinda da Copa América para o Brasil (pelos motivos já citados nesta análise) a uma mera briga por direitos de transmissão é um argumento rasteiro e condizente com o atual momento político no país, em que o presidente e seus aliados transformam a compra do torneio pelo SBT em uma “derrota” da Globo. Na “guerra” de narrativas, o que menos importa é a vida.

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