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Ilze Scamparini estreia como escritora, lança romance e se rende às redes sociais: “Livro foi o empurrão”

Em entrevista à coluna, correspondente da Globo fala sobre seu primeiro livro, Atirem Direto no Meu Coração

Publicado em 07/12/2021
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Quando Ilze Scamparini aparece na nossa TV, a notícia é sobre a Itália. Desta vez, a correspondente da Globo traz notícias dos Bálcãs, também na Europa, em seu primeiro livro, Atirem Direto no Meu Coração (editora Harper Collins Brasil), romance inspirado na história real de uma mulher sérvia que decide lutar na Guerra do Kosovo, em 1999. Em entrevista exclusiva à coluna, a jornalista detalha o processo de produção do romance.

O conflito na região da antiga Iugoslávia chamou a atenção de Ilze Scamparini desde sua mudança definitiva para Roma, há 22 anos. A jornalista conheceu por acaso a mulher que inspirou Yana Milinić, protagonista do livro. Além de inúmeras entrevistas com a soldada, realizou pesquisas e passou madrugadas escrevendo até em pé para conciliar a estreia como escritora com seus trabalhos para a Globo.

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“Através desta personagem, acabei sendo uma correspondente de guerra sem ter ido a uma. Foi uma experiência interessante, um teste até para a compreensão do que pode ser um conflito dessa natureza. Parecia que uma bomba explodia do meu lado. Foi uma experiência que me provocava muita angústia também. Foi um grande aprendizado, não só bélico, de como pessoas se comportam dentro de um cenário de batalha, mas sobretudo humano. Guerras são sempre terríveis, não há nada que as justifique”, afirma Ilze Scamparini.

À coluna, a jornalista ainda comenta algumas passagens como correspondente na Itália e fala de sua estreia também nas redes sociais, embora ainda esteja aprendendo a nova linguagem da internet.

Confira abaixo a íntegra do bate-papo com Ilze Scamparini:

Capa do livro Atirem Direto no Meu Coração, de Ilze Scamparini (Divulgação/Harper Collins Brasil)

PAULO PACHECO: Está sendo muito interessante conhecer sua outra vocação. Como é para você estrear escrevendo um pouco de ficção e um pouco de realidade?

ILZE SCAMPARINI: Eu já poderia ter escrito vários livros sobre situações que vivi como repórter, mas acho que me guardei para estrear com algo mais forte. Eu já tinha curiosidade sobre essa guerra. Por acaso, um dia conheci a pessoa que inspirou a Yana. Ela existe, logicamente não posso revelar a identidade dela. Foram anos de conversas, entrevistas, pesquisas e anos escrevendo, mesmo na madrugada ou pela manhã cedo. Escrevi até em pé! Tinha períodos de dor nas costas, botava uma mesinha em cima da mesa e escrevia em pé, sempre em horários que não atrapalhassem o trabalho. Por isso demorou tanto, porque foi diluído em um espaço de tempo grande, e também porque precisei fazer muitas pesquisas, precisei confrontar muita coisa que ela contou, ver se procedia, se podia fazer sentido.

PP: Você fez um trabalho jornalístico para escrever esta ficção, e depois ainda teve de transformar estes relatos jornalísticos em uma história instigante, que prendesse o leitor. Quando você terminou de escrever, depois de revisar tudo, qual foi sua primeira sensação?

IS: Revisei inúmeras vezes. O trabalho de repórter foi muito importante para mim neste livro. Começou nos confrontos com a Yana, em conversas duras às vezes, porque a pessoa que traz um passado desses não é fácil, muitas vezes esquece, mente, fantasia, conta outra coisa, dá outra versão. Tudo isso fez parte do primeiro ‘caldeirão’ da história, que foram as entrevistas. Depois, ela teve um pouco mais de confiança, foi se abrindo um pouquinho mais, aprendi como obter relatos mais detalhados, revelações. A fase de pesquisa é um processo complicado, porque, sobretudo na imprensa, é um tema muito explosivo, que envolve nações quase inimigas por algumas questões. Como foi difícil perceber a imparcialidade em todos os textos que eu lia! Foi um trabalho.

Yana é sérvia e dá tudo do ponto de vista daquela Sérvia que ela representava. Ela foi uma vítima do nacionalismo, como eu acho que o meu livro é um alerta contra os nacionalismos de todos os tipos. Ela representava aquele pedaço de população, o pedaço camponês, geralmente mais religioso e, portanto, menos simpático ao poder. E que poder era esse? Minha Yana cresceu na Iugoslávia de [Josip Broz] Tito, onde os operários tinham politicamente mais importância do que os camponeses. Tudo isso segundo a visão dela, mas que, depois de pesquisar, vi que fazia sentido, porque os camponeses são sempre mais religiosos, criam determinados problemas aos regimes comunistas, e os operários gozavam de maior prestígio. Ela mesma dizia que uma família de operários tinha mais condição de pagar uma casa de férias do que uma família de camponeses. Ela cita vários exemplos daquela Iugoslávia dela, que também tinha coisas muito boas. O próprio Tito era um mito para ela.

PP: Você se sentiu atraída por uma história dentro de um contexto muito terrível, de conflitos, guerra, separatismo, ultranacionalismo, violência, e acabou pinçando a história de uma pessoa comum, que não estava apenas observando tudo aquilo, mas também se colocando no front de batalha, e é uma mulher, o que chama mais a atenção.

IS: É uma mulher que, ainda que tenha cometido algumas falhas, digamos assim, na sua conduta, era honesta, tinha uma bondade dentro dela. A rigor, não tinha nada a ver com aquele cenário, depois vai para a guerra por um motivo preciso e ali se depara com uma série de coisas. O livro tem o desejo de mostrar do que a guerra é capaz, de como transforma as pessoas de uma maneira brutal. O mundo dela vai se revelando também no livro, a origem dela, tudo que aconteceu com ela. Acho esse contexto muito importante na minha história, dá ao livro uma dimensão de romance realmente, não é só na forma de contar, mas também por todo o universo que está contado ali.

PP: Outro ponto que chamou a atenção no livro, Ilze, é ver você em outro lugar. Você é jornalista há mais de 30 anos, viajou para muitos, mas sua imagem está muito atrelada à cobertura da Itália e do Vaticano. Acredito que o romance possa ser uma porta de entrada para quem não conhecia você antes de se fixar em Roma.

IS: Através desta personagem, acabei sendo uma correspondente de guerra sem ter ido a uma. Foi uma experiência interessante, um teste até para a compreensão do que pode ser um conflito dessa natureza. Parecia que uma bomba explodia do meu lado. Foi uma experiência que me provocava muita angústia também. Foi um grande aprendizado, não só bélico, de como pessoas se comportam dentro de um cenário de batalha, mas sobretudo humano. Guerras são sempre terríveis, não há nada que as justifique.

Quando cheguei à Itália para ser correspondente, parte dos italianos estava bem descontente, justamente porque o país tinha emprestado as bases para os aviões decolarem para bombardear tanto Kosovo quanto a Sérvia. A Itália tem uma posição estratégica fenomenal no meio do Mar Mediterrâneo, todo mundo quer usar as bases daqui, e acabou fazendo o que a Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte] queria. Embora a Itália seja membro fundador da Otan houve, países que ajudaram menos. A própria Grécia nem mandou aviões. Há uma comunidade pacifista e naturalista muito forte aqui. O primeiro-ministro caiu alguns meses depois, e um dos motivos foi a guerra do Kosovo. Isso marcou a minha chegada. Ficou essa indagação em algum lugar da minha memória. Anos depois, encontro essa personagem por acaso e pergunto se posso fazer uma tentativa de escrever alguma coisa sobre ela.

PP: Você chegou a viajar até a região?

IS: Não, e foi uma opção. Vi muitas fotos, muitas coisas, mas sem ir até lá, porque já foi uma guerra que cobri sem ir, cobri por meio de outra pessoa, de outras visões. Decidi não ter esse contato direto para ficar mesmo com aquelas impressões dos meus personagens. Cheguei em 1999, quando teve esse ataque da Otan. Tive esse primeiro impacto e depois a vida seguiu. Mais ou menos dez anos depois conheci a personagem que inspirou a Yana.

PP: Estamos falando de uma guerra com milhares de mortos, e a Itália passou por algo assustador na virada de 2019 para 2020 em razão da pandemia de coronavírus. Como telespectador, consegui sentir na sua voz a sua preocupação e até o seu desespero, como se estivesse segurando um choro. Antes de chegar aqui no Brasil e ser até pior, na Itália tornou-se um problema terrível.

IS: Acabou tendo uma dimensão inesperada e completamente assustadora. Foi um exemplo a ser evitado. Foi a primeira experiência no mundo ocidental. Depois da China, caiu aqui, com erros de avaliação também, porque não se conhecia. Não foi só a população mais idosa que acabou provocando as mortes. Foi a inexperiência total com o assunto, tanto que hoje se trata de maneira diferente, até a intubação acontece de outra forma. Foi muito, muito difícil, muito triste. O duro era ver que o Brasil não acreditava muito nisso. Tentávamos contar de todas as maneiras. Dava muita aflição.

PP: De longe, o que você sentiu quando o vírus chegou aqui ao Brasil e causou o estrago que conhecemos?

IS: Já imaginávamos que um dia iria chegar aí e causaria o mesmo estrago, mas eu queria que o Brasil tivesse aprendido com a experiência italiana mais imediatamente, e demorou para as pessoas perceberem que não era uma gripe, era uma coisa muito pior.

PP: Como você propôs à editora a publicação do livro? Foi uma negociação demorada?

IS: Não foi demorado nem complicado. Aconteceu de maneira muito natural. Procurei a agência literária da Lucia Riff, que leu o livro. A Eugênia [Ribas-Vieira], que é uma das editoras, falou comigo, trocamos muitas conversas, e ela gostou do livro. A agência propôs para algumas editoras, algumas se interessaram, mas a Harper Collins vibrou imediatamente. É bacana quando alguém vibra com aquilo que você faz e te entusiasma. Tinha que ser com eles.

PP: Foi mais tranquilo do que o seu outro processo de convencimento, quando você mudou para a Itália e propôs à Globo ser uma correspondente em Roma e no Vaticano?

IS: Foi assim. Evandro Carlos de Andrade era diretor de jornalismo da Globo e me mandou passar um período em Los Angeles como correspondente. Foi um período importante, aprendi uma série de coisas, mas quando voltei ele falou: ‘Sei que você gostaria de morar na Itália, quem sabe um dia’. O Armando Nogueira, que não era mais diretor da Globo, comentou que eu tinha esse desejo de trabalhar na terra de onde tinham vindo os meus avós. Meses depois que voltei dos Estados Unidos, tive uma ideia. Não é que propus ser correspondente na Itália. Eu propus a forma de ser correspondente na Itália. Isso que foi novo, porque você não se propõe, não é uma coisa que você pede, é uma coisa para a qual você é convidado. Como eu já tinha essa porta aberta, só faltava o ‘como’, porque o mundo estava vivendo uma crise, as grandes TVs estavam reduzindo os espaços de correspondência. Até aquele momento, um correspondente ia ao exterior com diversas pessoas, havia equipamentos grandes, precisava de uma sala, era um investimento alto. Eu fui sozinha. Justamente a minha proposta para a Globo foi o ‘work home station’, que é fazer da casa o escritório, eliminando uma série de custos. Cheguei aqui, terceirizei o cinegrafista que está comigo até hoje, Maurizio Della Costanza. Temos muita afinidade profissional. Foi uma grande pesquisa também para encontrar uma forma de edição, mas tive um dos primeiros programas Avid Express, não para cinema, e sim para TV, aqui de Roma. Acabou sendo uma forma nova de trabalhar como correspondente.

Depois da minha experiência, a Globo exportou esse modelo e mandou gente para outros lugares. Foi bacana. Houve esse pioneirismo, e eu falo sem modéstia, porque para mim foi importante. Um segundo pioneirismo nosso é que fomos a primeira equipe a transmitir via internet. Até então eram transmitidos via satélite. Custava no mínimo 1.300,00 dólares para mandar 10 minutos de matéria. Não dava para fazer uma cobertura diária, no máximo semanal. Fazia muito o Fantástico, reportagens especiais. Logo a Globo desenvolveu, junto com outras TVs no mundo, o envio via internet. Pedro Bial fez a primeira transmissão como enviado, na China, e eu com o Maurizio fomos a primeira equipe a trabalhar com isso como correspondente. Nossa imagem no início era pior do que a das outras, parecia menos nítida, isso nos entristecia um pouco, mas a agilidade que a internet deu foi incrível, começamos a cobrir tudo, foi uma reviravolta.

PP: Uma coisa que demorou, e muita gente estava esperando, era te ver nas redes sociais. Você tem muitos fãs no Brasil, muita gente gosta do seu trabalho e gostaria de te acompanhar além dos cinco minutos no Jornal Nacional ou em outros programas. Você criou o Instagram para divulgar o livro? Pretende usar mais as redes sociais?

IS: Tem um pouco a ver com a divulgação do livro. Sinceramente, eu já vinha pensando há algum tempo em me colocar nas redes. Pensava: ‘Por onde começo?’, porque não tinha tempo e gostaria de contar, mostrar algumas coisas. As pessoas pedem, falam ‘vamos nos comunicar’, e você acaba se sentindo meio fora. Acho que isso se juntou e o livro foi o empurrão que a própria editora me sugeriu. Ainda não acho que uso as redes como talvez a maioria use. Estou mostrando um pouquinho dos meus arquivos. Procuro fazer pequenas reflexões, coisas muito simples, mas acho que talvez eu mostre um pouquinho do meu dia a dia, se eu tiver um pouco mais de tempo.

Gosto muito da tecnologia, das coisas modernas e novas, mas quero ser e representar o meu tempo também. Não tenho esse problema de assumir a minha idade [62 anos], de jeito nenhum. É como dizia o Carlos Manga. Uma vez fui fazer uma matéria para o Globo Repórter sobre os 50 anos da Atlântida, uma produtora de cinema importante em uma determinada época. Botei uma roupa legal, um smoking lindo, uma blusa branca de renda por baixo, um sapato de salto de cetim, do mesmo tecido da gola do smoking. Quando cheguei, estava lá o Carlos Manga, um grande diretor dos filmes da Atlântida. Ele olhou para mim e falou: ‘Olha, muito obrigado pela forma como você veio vestida. A sua elegância mostra a importância que você está dando para nós, velhinhos da Atlântida. Olhei e vi sentadinho, encolhidinho, Grande Otelo. Não acreditei quando vi Grande Otelo! Foi um dia maravilhoso. Carlos Manga falou: ‘Não vou ver o que os jovens vão ver, mas eles também não viram o que eu vi’. Fique com o seu tempo que é legal assim.

PP: Embora você não seja tão ligada às redes sociais, seu nome aparece com frequência entre os assuntos mais comentados. Por exemplo, no Masked Singer a Taís Araújo apostou em você por baixo da fantasia de arara. Ou quando lembram sua cobertura do Rock in Rio. Você já sabia que era muito comentada e querida entre o público brasileiro?

IS: Às vezes as notícias chegam e às vezes não. Como eu também não estava [nas redes sociais], agora estou começando a participar, mas ainda preciso aprender muita coisa.

Ilze Scamparini foi citada no Masked Singer Brasil (Reprodução/TV Globo)

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