Elize Matsunaga: Netflix foge de apelação da TV e oferece “sensacionalismo gourmet”

Plataforma lança nesta quinta (8) a série Era uma Vez um Crime, sobre assassinato que chocou o Brasil

Publicado em 8/7/2021
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“O que é a vida?”. A pergunta de Antônio Abujamra (1932-2015) a seus entrevistados no programa Provocações é tão difícil de responder quanto a que vem a seguir: “o que é a morte?”. Enquanto a psicologia desvenda por que a finitude provoca medo e fascínio, a TV, que não tem nada com isso, aproveita o interesse do ser humano no assunto. Neste contexto, surge a história de Elize Matsunaga, assassina confessa do marido, esmiuçada na série Era uma Vez um Crime, da Netflix. A coluna assistiu antes e antecipa o que você vai ver a partir desta quinta-feira (8).

O caso, amplamente conhecido, tomou as atenções do público e da imprensa em 2012. Programas policiais, telejornais e revistas eletrônicas exploraram ao máximo o “crime que chocou o Brasil”, como descreve a Netflix ao anunciar a série, dividida em quatro episódios de 50 minutos. Nenhuma abordagem, entretanto, se compara à retratada pela produção assinada pela Boutique Filmes.

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Além da “cereja do bolo” (a primeira entrevista à imprensa de Elize Matsunaga), o documentário dirigido por Eliza Capai reconstitui toda a trajetória da criminosa, da infância e adolescência a seu julgamento pelo homicídio qualificado de Marcos Matsunaga, herdeiro da empresa alimentícia Yoki, pelo qual foi condenada a quase 20 anos de prisão.

Como a Justiça já culpou Elize, o caso está solucionado, certo? Errado. Com um roteiro e uma edição afiadíssimos, Era uma Vez um Crime coloca ainda mais dúvidas na cabeça do espectador. Diferentemente da cobertura sanguinolenta dos programas policiais, o homicídio ganha na Netflix contornos de thriller e até dramalhão, gênero que poderia se chamar “sensacionalismo gourmet”.

As imagens de arquivo de Globo, SBT, Record e Band inseridas no documentário só reforçam o contraste entre o “mundo cão” da TV e a arte da Netflix, com produção da Boutique Filmes. Jornalistas entrevistados para a série admitem sua parcela de culpa na “espetacularização” de um crime hediondo.

“Tive uma dificuldade muito grande de emplacar essa pauta, porque era um pedaço de um corpo que não tinha uma história”, contou Lucas Martins, repórter do programa Brasil Urgente, da Band. “É um crime que, de certa forma, a gente fez acontecer”, reconheceu Paula Scarpin, ex-repórter da revista piauí e autora da reportagem “Um crime célebre”, sobre o julgamento de Elize Matsunaga, um dos mais longos da Justiça de São Paulo, em dezembro de 2016.

A riqueza do documentário, todavia, está nos detalhes. O registro de Elize picando uma cebola não existe por acaso. Sabe qual o pintor favorito dela? Caravaggio, famoso por “decepar” cabeças em suas telas. No terceiro episódio, a presidiária ensina a caçar animais e cortá-los da forma correta para empalhá-los (Elize guardou uma cabeça de veado abatido por ela como troféu). Este era um dos comportamentos excêntricos do casal, que guardava em casa vinhos, charutos cubanos e muitas armas.

Elize Matsunaga na série Era uma Vez um Crime (Reprodução/Netflix)

A edição, assinada por Vinicius Prado Martins e Daniel Grinspum, e o roteiro de Diana Goltsé são traiçoeiros. Era uma Vez um Crime pulveriza qualquer tentativa de rotular quem é mocinho e quem é vilão (ou vilã). Por instantes, o espectador começa a ter empatia com Elize, como bem escreveu o repórter Felipe Pinheiro em sua crítica para o portal UOL. A moça pobre de Chopinzinho (interior do Paraná) teve uma infância sofrida, conheceu um milionário e ganhou vida de princesa. A romantização é imediatamente quebrada quando o documentário lembra que a moça pobre de Chopinzinho esquartejou o marido.

Durante os quatro episódios, o público é deslocado para os dois lados da história, ora se sensibilizando com a dor de uma mulher vítima de machismo, ora se indignando com a crueldade de uma assassina. Depoimentos de amigos e familiares e conflitos morais temperam a série e confundem ainda mais o espectador, principalmente o sexo. Elize é apresentada como garota de programa, enquanto Marcos aparece contratando acompanhantes de luxo (conheceu sua assassina quando estava casado com outra).

“A escolha em divulgar que ela era garota de programa é tratada de uma maneira, ao meu ver, completamente pejorativa. O fato de ela ter sido garota de programa é um elemento na vida da Elize”, analisou Thaís Nunes, jornalista investigativa do documentário Era uma Vez um Crime.

No fim, de quem é a culpa: a prostituta que matou um “cavalheiro” ou o milionário cheio de amantes? Era uma Vez um Crime não tem o objetivo de condenar ou inocentar (por esse motivo o promotor José Cosenzo topou participar, conforme revelado à coluna). Este papel já foi executado pela Justiça. A série da Netflix cumpre a missão de instigar o público para um caso que, mesmo tendo passado pelos tribunais, está longe de terminar. Afinal, Elize ainda não tem o veredito que mais lhe interessa: o da filha, atualmente sob guarda dos avós paternos.

“Há segredos na vida que a gente leva para o túmulo, há segredos que são proibidos para mim e que eu levaria para o túmulo, não serão ditos aqui e em nenhum momento”

Elize Matsunaga

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