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Dublador pede “bênção” a viúva de Zacarias para interpretar trapalhão em filme sobre Mussum

Gustavo Nader, voz de Leonard em The Big Bang Theory, fala à coluna sobre Mussum, o Filmis

Publicado em 08/11/2023

Em cartaz nos cinemas, Mussum, o Filmis conta com estrelas como Ailton Graça e Neusa Borges, além de atores quase anônimos de rosto, porém muito conhecidos pela voz. É o caso de Gustavo Nader, dublador de personagens como Leonard, da série The Big Bang Theory. Coube a ele interpretar Zacarias nas releituras de Os Trapalhões, além dos bastidores tensos das gravações do programa na Globo.

A dublagem tornou o papel de Zacarias ainda mais especial para Gustavo Nader. Ele trabalha com Selma Lopes, considerada “rainha” da profissão, que foi casada durante 15 anos com o ex-trapalhão antes de integrar o humorístico. Juntos, tiveram uma filha. O intérprete do personagem em Mussum, o Filmis recebeu a “bênção” da colega de 95 anos quando estava prestes a rodar as primeiras cenas.

Em entrevista exclusiva à coluna, Gustavo Nader comenta a preparação para viver Zacarias e avalia que o trapalhão também merece um filme próprio. Confira a íntegra abaixo, em tópicos:

Como Gustavo Nader virou Zacarias

Sempre encarei a profissão como uma vertente de várias coisas. Quando comecei a dublar, com dez anos, fazia curso de teatro, de televisão, fiz comerciais de cerveja. Passei para a última oficina aberta de atores da Globo. Fiz para o Multishow a série Acerto de Contas, e o protagonista era o Silvio Guindane. Anos mais tarde, ele foi convidado para dirigir o filme e me chamou para o teste, mas quando é da Globo Filmes você se submete à banca deles também e se houver uma discordância abre mais testes. Fui unânime pela banca.

Guindane já brincou comigo: “Já te falaram que você parece o Zacarias?”. É um elogio, mas eu era ignorante. Eu nunca tinha visto Mauro [Faccio Gonçalves] sem ser Zacarias. A direção do filme não queria imitadores, mas pessoas que lembrassem os personagens e os atores. Quando surgiu a trupe dos Trapalhões, eles tinham seus próprios palhaços interiores. Tivemos aula de circo, aula de palhaçaria, e fomos descobrindo tanto as personagens do Didi, Dedé, Mussum e Zacarias quanto as pessoas que as representavam. Conseguimos fazer um trabalho muito bonito.

“Bênção” de Selma Lopes

Eu liguei para Selma Lopes. Eu liguei para ela no primeiro dia de filmagem. “Selma, eu… recebi um convite, fiz o teste para o filme do Mussum, e eu queria falar com você, porque… eu vou fazer o Mauro”. Selma Lopes fala para mim assim: “Meu querido, não poderia ter ator melhor no Brasil para representar o que o Mauro representava, para ser o Mauro e para fazer o Zacarias”.

A gente ainda não podia falar o que tava fazendo, tanto que eu pedi no dia da filmagem e me liberaram. Depois do filme eu não falei com a Selma. Eu vou até ligar para poder conversar, ver se ela viu, o que que achou.

Ailton Graça, Felipe Rocha, Gustavo Nader e Gero Camilo em Mussum, o Filmis
Ailton Graça, Felipe Rocha, Gustavo Nader e Gero Camilo em Mussum, o Filmis

Humor politicamente incorreto

Eu olhava os ensaios, a gente trocando nossas experiências. Falava: ‘A gente está construindo um negócio muito bonito’. O último dia de filmagem é da cena em que o Dedé puxa a reflexão sobre a continuidade ou não junto com o Renato [Aragão]. Foi uma cena muito difícil de fazer, porque é um plano-sequência grande. A gente fez uns 40 ou 50 takes, não lembro, mas foi a última cena que a gente rodou. É engraçado, porque dava vontade de fazer mais, de estar fazendo algo que continua tocando o coração das pessoas porque, embora Os Trapalhões tivesse um humor que hoje não cabe usar, principalmente com relação ao Mussum, por exemplo: em uma esquete, o Dedé puxa uma arma falando que vai matar a mulher. É você entender que os anos 80 foram muito peculiares na história da humanidade, mas que 70% da audiência era dos caras. É uma coisa que marcou uma geração porque eles eram muito bons fazendo aquilo.

Quando o Renato reúne o grupo, ele queria representar o Nordeste, o Mussum representa o povo, o Dedé seria um galã de circo, que não fosse muito bonito, e eles queriam um cara que fosse excelente comediante, que foi o Mauro. Quando você traz essa reunião desses caras todos, é muito claro o impacto que isso vai ter, e a gente tem esse impacto até hoje. Quando toca a música, há uma mensagem, carrega uma afetividade. Ter um grupo que partiu de princípios parecidos para poder formar uma releitura do que é Os Trapalhões, é um lugar de privilégio.

Construção de Zacarias

Eles me deram a peruca para ficar de lembrança. Pedi uma das perucas, porque a gente usa perucas em várias fases. A primeira, piorzinha, quando ele chega, e depois vai melhorando. Eu raspei a cabeça, Guindane falou que eu teria que raspar e disse: ‘Não vai ter problema nenhum, pô. Problema zero’. Deixamos só uns fiozinhos que ele tinha. Filmamos entre janeiro e fevereiro do ano passado. As pessoas achavam que eu estava fazendo implante capilar (risos). Eu estava mais gordinho, e tinha um dente falso, mas fizemos sem a prótese. Na primeira cena que o Mauro aparece, eu já estou com os dentes pintados, mas ninguém percebe. E na primeira aula de clown, eu começava a rir que nem o Zacarias, era um barato! Acho que as entidades estavam perto e ajudaram.

A grande dificuldade da cineobiografia foi achar o Mauro, quais eram os conflitos dele. Ele era funcionário público, caixa de banco. A vida de artista é muito difícil. Como é que você larga o funcionalismo público para se aventurar num negócio que pode acabar no dia seguinte? O Mussum na Aeronáutica foi a mesma coisa. E eu passei por isso na minha vida. Familiares e pessoas próximas falaram toda hora que dublagem não era profissão. Eu quase saí da dublagem, passei em um concurso público para técnico do Ministério Público da União. Eram 1555 vagas e fiquei em 100º e pouco. Enquanto esperava, comecei a dirigir Diablo III. Foi o que me salvou.

Procurei dentro de mim não uma representação das minhas emoções, mas numa metodologia de trabalho que fosse essa: o que o meu corpo sente quando é rejeitado? O que o meu corpo sente quando eu chego atrasado para uma oportunidade? Como eu vivo essa experiência? Busquei essa pessoa conflituosa, como todos nós somos. Procurei fazer o Mauro através deste caminho, para que me ajudasse também a fazer o contraponto do Zacarias.

Zacarias merece filme próprio

Eu vou falar para você que ele merece um filme próprio, mesmo que não seja eu que faça, porque o Mauro viveu muitos preconceitos. Se Mussum era preto e na época era um escândalo um preto ter a grana que ele tinha, Mauro tinha o preconceito por causa dos amores que ele tinha. Quando descobrem que ele está doente, afastam-no, porque uma pessoa com aquela doença [Aids] não poderia ser um influenciador infantil. Foi muito cruel, muito cruel o que fizeram com o Mauro.

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