Do “lixo” no Ídolos ao luxo com Alcione na Globo: quem é Caio Prado, cantor do tema de Falas Negras

Artista foi rejeitado na Record, mas conquistou espaço na música de protesto brasileira

Publicado em 21/11/2021 00:41
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Pelo segundo ano consecutivo, a Globo estimula a reflexão sobre o racismo. O especial Falas Negras, exibido neste sábado (20), exibiu um dueto inédito da veterana Alcione com um expoente da nova geração da MPB: Caio Prado. O cantor de 30 anos compôs Não Sou Teu Negro, que embalou o final do programa, dividiu os microfones com a sambista e expôs sua mensagem de protesto.

Criado no bairro do Realengo, subúrbio do Rio de Janeiro, Caio Prado passou por péssimas experiências na TV antes de brilhar ao lado de Alcione na Globo. A pior delas foi em 2009, quando concorreu no programa Ídolos, da Record, e foi chamado de “lixo” pejo produtor musical Marco Camargo.

“Foi a pior apresentação que eu vi em todos os Ídolos. A pior! Um lixo!”, esbravejou o jurado ao ver o quarteto do qual Caio Prado fez parte na fase dos shows no teatro. Eliminado também com os votos negativos de Luiz Calainho e Paula Lima, o então candidato de 18 anos chegou a passar mal, e seu drama foi explorado pelas câmeras da Record.

No ano seguinte, Caio Prado tentou mais uma vez uma vaga na competição, porém parou na primeira música. Calainho, Marco Camargo, Paula Lima e o convidado Marcelo D2 até elogiaram a afinação do cantor, mas criticaram sua performance “exagerada” e “teatral”. E, assim, ele desistiu de vez dos programas de calouros.

“Em 2010, com 19 anos, virgem dos sonhos, eu era humilhado em rede nacional na frente de jurados de um programa musical de calouros. Fui convidado a participar novamente depois de ter sido chamado de lixo, em 2009, por uma apresentação desastrosa em grupo, que sob a pressão de um reality show foi obrigado a cantar em conjunto e aprender uma canção, ensaiando pela madrugada, depois de um dia inteiro de gravações. Na manhã do desastre tomava remédio paliativo, atento ao olhar das câmeras sensacionalistas, para que minha voz se recuperasse do dia anterior. O resultado não poderia ser diferente: um verdadeiro erro em grupo, onde um efeito dominó foi se tomando no palco e cada um caía em derrota. Fomos tratados como lixo, mesmo estando confinados na seleção dos ’80 melhores cantores do Brasil’ e de ter arrancado elogios na fase anterior. Fiquei paralisado por alguns instantes, com muito medo e pânico, e tive que ser novamente medicado”, revelou Caio Prado ao falar pela primeira vez sobre o Ídolos, em 2020.

“No segundo ano, parecia que tudo ia ser diferente. A produção do programa me ligou perguntando se eu queria participar novamente do reality e que agora me daria privilégios: eu não precisaria passar pelas filas com alguns milhares de pessoas debaixo de sol e chuva atrás do sonho musical; iria diretamente à fase dos jurados que aparecem na televisão. O efeito ilusão me tomou. Mesmo já tendo vislumbrado no ano anterior que aquele lugar não era para mim e ter vivido um ano inteiro a superar o trauma, aquela ligação me deu esperança de que aquele programa via o meu talento. Pensei: ‘Eles vão me dar uma nova chance porque acreditam em mim’”, prosseguiu ele.

A humilhação em rede nacional desabrochou um talento singular na arte brasileira. Também em 2010, compôs o hino Não Recomendado, sobre a LGBTfobia da qual é vítima. É a música de Caio Prado mais ouvida no Spotify (1,35 milhão de execuções) e batizou o trio Não Recomendados, formado por ele ao lado de Diego Moraes (ex-Ídolos) e Daniel Chaudon (ex-Fama).

Desde o lançamento de seu primeiro álbum, Variável Eloquente (2014), Caio Prado conquista mais espaço no cenário artístico e na música de protesto. Com sua voz potente e afinada, o cantor amplifica o grito por justiça social e pelo fim dos privilégios das classes opressoras. De sua revolta, saíram Golpistas (sobre o impeachment da presidente Dilma Rousseff), 15 de Março (em homenagem a Marielle Franco, vereadora assassinada no Rio de Janeiro em 2018) e Não Sou Teu Negro, escolhida pela Globo como trilha de Falas Negras.

“Fiquei imensamente honrado com o convite, e é uma alegria enorme poder contribuir com um especial de tanta representatividade ao lado de uma cantora como Alcione que, para mim, é a voz do povo, a voz da rua, aquela que nunca deixa o samba morrer. As músicas de protesto sempre foram as que mais se destacaram na minha carreira e ‘Não Sou Teu Negro’ representa toda uma construção da identidade do que é ser preto e, ao mesmo tempo, é uma forma de produzir orgulho para nós”, celebra Caio Prado.

Caio Prado e Alcione (Vantoen Pereira Jr/TV Globo)

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