Deputada propõe incentivo à culinária africana após Ana Maria Braga discriminar prato na Globo

Deboche de apresentadora ao vivo no Mais Você estimula indicação de deputada

Publicado em 2/6/2021
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O deboche de Ana Maria Braga ao ugali, prato típico do Quênia, gerou repercussão negativa também na Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo). Incomodada com o episódio transmitido ao vivo no Mais Você, em 27 de abril, a deputada estadual Erica Malunguinho (PSOL-SP) indicou ao governador João Doria (PSDB) incentivos à gastronomia africana no estado. Em entrevista exclusiva à coluna, a parlamentar explicou a influência do ato discriminatório da apresentadora da Globo para a realização da proposta.

Malunguinho sugere que Doria determine à Secretaria de Cultura e Economia Criativa o “desenvolvimento de programas, projetos e ações que possam garantir o reconhecimento das influências africanas na cultura alimentar paulista”. Diferentemente de projeto de lei ou emenda parlamentar, a indicação não é levada para votação entre os deputados e pode ser aceita ou recusada diretamente pelo governador. A proposta não altera o orçamento estadual, pois se trata de uma transferência voluntária de recursos já aprovados.

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Em sua indicação, a deputada estadual justifica a necessidade de incentivar a culinária africana usando como exemplo a fala depreciativa de Ana Maria. Durante o programa, ela quase se recusou a provar o ugali. “Vamos juntos? Porque se passarmos mal, passamos mal juntos”, disse ao colega Thiago Oliveira. “Rapaz, é feio, hein”, criticou ela ao ver a refeição. Os dois apresentadores pediram desculpas após a repercussão negativa do episódio, com desabafo inclusive do conceituado Chef Sam, nascido em Camarões e autor do prato para o Mais Você.

“Recentemente, a apresentadora Ana Maria Braga (durante programa da maior emissora do país) debochou de um prato queniano chamado ugali em rede nacional. O episódio gerou grande descontentamento da população e, também, de chefs de africanos residentes no Brasil. A fala inadequada de uma figura pública reconhecida pelo trabalho com a culinária demonstra o desconhecimento de parte da população sobre a riqueza das culturas alimentares africanas e, consequentemente, das origens da alimentação brasileira. Além disso, expressa a profundidade do racismo cultural, mecanismo que habita as estruturas sociais e ainda precisa ser combatido por meio de medidas educativas e ações afirmativas”, escreveu Malunguinho na indicação parlamentar.

Procurada pela coluna, a deputada afirma que a fala de Ana Maria foi mais um motivo para que ela agisse mais uma vez na defesa da cultura africana ao lado de outras proposições, como o Projeto de Lei que institui 25 de maio como Dia do Imigrante Africano.

“Quando eu vi aquilo, fiquei indignada. Ao mesmo tempo, não me surpreendi, porque tenho consciência de que as pessoas são forjadas neste caldo racista, que objetifica, que entende a pessoa negra e toda a produção dela como algo estranho, exótico, selvagem. Procurei o Chef Sam, que foi diretamente atacado, e comecei um conjunto de movimentações em relação à valorização da gastronomia africana. É urgente fazer proposições e práticas afirmativas que visem desconstruir o imaginário racista. Quando falamos que o racismo é estrutural, dizemos que ele organiza as relações sociais e é distribuído para toda a gente”, explica a parlamentar.

O próximo passo para pressionar Doria é conquistar mais apoio popular e da classe ofendida por Ana Maria Braga. Malunguinho se reunirá com outros chefs de culinária africana e realizará audiências públicas com o objetivo de propagar a importância de sua indicação. A deputada se mostra confiante para esta aprovação, após outras medidas bem-sucedidas de seu mandato, como a distribuição gratuita de refeições pelo Bom Prato a pessoas em situação de rua.

“Meu papel é intervir sendo pedagógica, mas também buscar soluções para que se desconstruam práticas racistas e xenofóbicas que estão tão presentes. O que me motiva é a luta pela população imigrante. A fala de uma apresentadora de repercussão nacional só ratifica a importância e a urgência de falar cada vez mais nisso, porque se ela, que tem acesso econômico à informação, vocifera um discurso extremamente violento, se fosse uma comida diferente da Europa ela acharia que iria passar mal? Ela mostrou também um total desconhecimento da própria gastronomia brasileira, fundada a partir da culinária africana e indígena”, conclui Erica.

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