Todos os Furos

Difícil de engolir: Assim como Travessia, novela Todas as Flores também é um poço de incoerências

Exibida no Globoplay, trama de João Emanuel Carneiro peca por situações surreais

Publicado em 29/11/2022

Destaque no horário nobre da Globo, a novela Travessia enfrenta uma série de críticas. De fato, há situações surreais na trama de Gloria Perez, impossíveis de defender.

Com a produção em baixa, muita gente começou a compará-la com Todas as Flores, obra de João Emanuel Carneiro que está no Globoplay. As duas novelas estrearam praticamente juntas.

Para quem não sabe, Todas as Flores era cotada para substituir Pantanal. Ou seja, seria a antecessora de Travessia às 21h. Entretanto, para dar mais prestígio ao streaming, a Globo promoveu mudanças. A trama foi reformulada (rebaixada, para alguns críticos), ficou com menos capítulos e poucos núcleos. Mas nem assim deixou as incoerências de lado.

Zoé (Regina Casé) e Judite (Mariana Nunes) em Todas as Flores
Zoé (Regina Casé) e Judite (Mariana Nunes) em Todas as Flores

Todos os Furos

Muita gente começou a aclamar Todas as Flores e pedir uma troca: colocar a novela no lugar de Travessia. De fato, o ótimo elenco, a história popularesca e bons ganchos são algumas qualidades.

Todavia, há uma série de situações que beiram o absurdo. Em cerca de 30 capítulos liberados, tem coisas que nem a novela de Gloria Perez chegou perto.

A primeira aconteceu nos capítulos recentes. Maíra (Sophie Charlotte) foi enviada para uma fazenda na qual pessoas são escravizadas, em um esquema de tráfico humano. A personagem conseguiu fugir ao lado de dois amigos. Eles foram capturados, ela não. Após conseguir carona e chegar em um posto, avisou Judite (Mariana Nunes), a única pessoa em que confia.

O que aconteceu depois foi surreal. Judite e Pablo (Caio Castro) foram atrás de Maíra, em um local a 100 quilômetros de onde estavam. Em parelelo, Zoé (Regina Casé) matou a charada e mandou seguranças seguirem a rival. Nesse tempo todo de estrada, eles não notaram que estavam sendo seguidos.

Mas o pior de tudo: ninguém chamou a polícia para dar apoio. Ao resgatarem Maíra, Pablo e Judite foram rendidos facilmente na estrada, e a mocinha cega recapturada. Esse foi o gancho para uma nova leva de episódios. Foram momentos tensos, mas dignos de risadas por tanta burrice.

Maíra (Sophie Charlotte) e Vanessa (Leticia Colin)
Maíra (Sophie Charlotte) e Vanessa (Leticia Colin) em Todas as Flores

Garçom vingativo

Se por um lado Maíra já jurou vingança contra Zoé e Vanessa (Letícia Colin), do outro há o personagem de Nicolas Prattes, o garçom injustiçado. Ele assumiu um crime que não cometeu em troca de dinheiro, mas acabou levando um golpe.

Na verdade, sua mãe chegou a receber o dinheiro, mas logo depois foi assaltada – obviamente, tudo armado por Olavo (André Loddi), o verdadeiro culpado. Mas o que chamou atenção foi Dequinha (Kelzy Ecard) receber 100 MIL REAIS em dinheiro vivo em um bar de periferia. Mesmo que Olavo não armasse o plano, ela poderia ser roubada facilmente por qualquer pessoa. Haja voo!

Ao sair da cadeia, Diego (Nicolas Prattes) começou a trabalhar para Samsa (Angelo Antonio). Tomou um banho de loja e mudou da água para o vinho. Mas não foi uma mudança a ponto de ficar irreconhecível. Entretanto, ele ficou cara a cara com Luís Felipe (Cássio Gabus Mendes), um de seus algozes, e o ricaço não o reconheceu. Puxado demais.

Nesse núcleo, já ficou claro que Samsa é o chefão do tráfico humano e que Diego vai conhecer a tal fazenda em breve. Há grande potencial para o encontro do rapaz com Jéssica (Duda Batsow), sua irmã que foi enviada para o local. Tomara que os autores não estraguem a personagem, uma das melhores da novela.

Nicolas Prattes vive Diego em Todas as Flores
Nicolas Prattes vive Diego em Todas as Flores

Rica, só que não

Todas as Flores peca também ao retratar Zoé. A personagem de Regina Casé é nada mais que uma das chefes do esquema de tráfico humano. A partir daí, é claro notar de onde vem seu dinheiro.

Mas uma situação nos últimos capítulos foi bem sem noção. A vilã chegou a implorar dinheiro para Vanessa, que deu um golpe usando o nome de Maíra. Pior que isso, torrou tudo e ficou sem verba para pagar a conta de luz, a ponto de ter a energia elétrica cortada de sua casa.

Forçar que Zoé é pobre a essa altura do campeonato e que precisa de Vanessa não faz o mínimo sentido. Ela como liderança de um esquema criminoso milionário devia ter uma vida muito confortável, sem depender da filha golpista.

Vanessa, por sua vez, ainda é uma personagem fora do tom. Letícia Colin é uma ótima atriz, mas força uma nova versão de Carminha que fica cansativo. Já Zoé tem muitas possibilidades e pode crescer na trama, ainda mais se o “amor de mãe” por Maíra aumentar.

Regina Casé vive Zoé em Todas as Flores
Regina Casé vive Zoé em Todas as Flores

Cobras e Lagartos invertida

Os telespectadores mais atentos já notaram que Todas as Flores parece bastante com Cobras e Lagartos, outra trama de João Emanuel Carneiro exibida às 19h. Começa pela Rhodes, uma espécie de Luxus mais chique. Já os protagonistas são invertidos. Maíra lembra Bel (Mariana Ximenes), a mocinha lerda da trama passada.

Rafael (Humberto Carrão) é tão certinho e chato como Duda (Daniel de Oliveira). Um personagem porre demais, tão ruim quanto seu pai, Humberto (Fábio Assunção). Já Pablo lembra Leona (Carolina Dieckmann). Embora mau-caráter, vai se apaixonar pela mocinha e criar um conflito com Vanessa, que tem muito de Estévão (Henri Castelli).

Ainda na linha de destaques, quem merece uma guinada é Judite. A personagem é importante, mas não mostrou a que veio. Só aparece para alertar Maíra contra Zoé e para esculhambar Humberto por conta do passado. O que não desce é o fato de Judite saber muita coisa sobre a rival, mas não revelar nada.

Mariana Nunes vive Judite em Todas as Flores
Mariana Nunes vive Judite em Todas as Flores

Núcleos insuportáveis

Para terminar, Todas as Flores sofre de um problema sério do autor: núcleos de humor insuportáveis. A história de Oberdan (Douglas Silva) é tão chata, mas tão chata, que dá saudade até do pai Helinho (Matheus Nachtergaele) de Da Cor do Pecado. Faz o núcleo de Cadinho (Alexandre Borges) de Avenida Brasil ser uma comédia incrível e aclamada. Agora, imagine ter que render essa história em mais de cem capítulos? Misericórdia.

Na mesma linha, o núcleo de Mumuzinho também é super cansativo. Engraçado Mauritânia (Thalita Carauta), esperta como parece, não notar que sua irmã está levando um golpe.

Oberdan (Douglas Silva) e sua família
Oberdan (Douglas Silva) e sua família em Todas as Flores

Mauritânia, porém, é a melhor personagem DISPARADA da novela. Tanto sua ascensão como nova rica quanto sua história de vida são acertos na trama. As cenas de Thalita com Suzy Rego (Patsy) são incríveis e mostram que elas merecem muito espaço na produção.

Enfim, Todas as Flores é um entretenimento interessante, mas está longe de ser uma boa novela. É tão ruim e incoerente quanto Travessia, com a vantagem de ter poucos personagens e não ser tão consumida pelo grande público por estar no streaming.

Por isso, não faz sentido pedi-la no horário nobre. Seria tão massacrada quanto a produção de Gloria Perez. Vamos ver se os próximos capítulos trazem boas novidades, assim como a segunda parte, que estreia em abril do ano que vem. Torcemos!

As informações e opiniões expressas nesta crítica são de total responsabilidade de seu autor e podem ou não refletir a opinião deste veículo.

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