Análise: Globo sai da zona de conforto para mostrar que não depende de Faustão

Sem medo, emissora antecipou o fim já combinado do relacionamento com o apresentador

Publicado em 18/6/2021
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Bastou a TV Globo soltar uma nota oficial lacônica comunicando a saída imediata do apresentador Fausto Silva para as redes sociais serem tomadas por um imenso Fla-Flu sobre uma saída assim sem despedida.

O comunicado diz: “Por razões estratégicas e internas, a Globo tomou a decisão de antecipar a saída de Fausto Silva do programa, e juntos decidiram formalizar o distrato”. A partir daí, a comunicação, que já tinha citado o substituto Tiago Leifert, detalha a última rodada do mata-mata do Super Dança dos Famosos. E vida que segue.

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O público trata seus ídolos de TV como os do futebol. Se um craque vai deixar o time, atraído por outro contrato milionário, costuma fazer um lindo jogo de despedida para agradar a torcida. Mas nesse caso quase sempre todo mundo ganha: o clube que vendeu o atleta, o empresário e o próprio jogador. A despedida é uma festa.

Já televisão é uma empresa como qualquer outra, onde contratos de trabalho são feitos e desfeitos e as emissoras não negociam entre si o passe de seus artistas. Como telespectadores são fãs fiéis movidos por paixões e emoções, podem se esquecer de que empregados não são sócios das empresas e podem ser dispensados pelos seus patrões a qualquer momento. Além disso, negociações do gênero com cifras milionárias incluem acertos resolvidos entre os advogados das partes.

Há 32 anos Fausto Silva vinha ocupando os domingos da Globo com sucesso e a emissora de fato se preocupava, tem muitos anos, com o dia da sua eventual substituição. Houve um tempo em que se considerou seriamente que a Globo chamaria um dia Rodrigo Faro para o posto. Ao mesmo tempo, Luciano Huck (que já se anunciou como novo titular do Domingão, a partir de 2022) foi crescendo na emissora e emergiu o talento da casa Tiago Leifert.

Vale lembrar que nada numa TV tão profissionalizada como a Globo é feito por palpite. A emissora tem muito know-how em captar tendências do público para decidir seus rumos. Nas novelas, por exemplo, destinos de personagens e histórias de autores já foram alterados em virtude dos resultados colhidos nos grupos de pesquisa (os focous groups), verdadeiros laboratórios para detectar preferências e gostos da audiência.

Quem ganha

Independentemente dos motivos que levaram a emissora a essa antecipação da saída de Fausto Silva, obviamente quem perde menos é a Globo. A saída do apresentador tinha sido combinada entre as partes para acontecer no final de 2021, com o preparo de um ano de programação toda especial, uma vez que Fausto Silva declinara da oferta de um programa noturno durante a semana.

Mas saiu na imprensa que já estava fechada a ida do apresentador para a Bandeirantes. Um diretor do programa (Cris Gomes) já até deixou a Globo com destino à Band, a fim de preparar o terreno por lá. Essa situação colocada, de um pé cá e o outro lá, foi o início do fim de qualquer tentativa de um bom desenlace entre o apresentador e a emissora dos Marinho.  

Globo e Band, embora concorrentes, são emissoras amigas: fazem parte da mesma associação patronal (a Abert – Associação Brasileira de Emissoras de Radio e Televisão), além de frequentemente fazerem acordos de repasse de direitos esportivos. Porém, dividir holofote dos talentos não faz parte da relação entre os Marinho e os Saad.

A parte desagradável é que foi por causa de um problema de saúde que a Globo acabou testando o apresentador temporário para o Domingão. Tiago Leifert, além de ter sido elogiado por todo lado, ainda garantiu no último dia 13 a liderança de audiência no horário diante de um jogo da Seleção Brasileira de futebol pela Copa América transmitido pela concorrente SBT.

Talvez essa tenha sido a deixa que a Globo esperava para encerrar o compromisso com Faustão, só tendo esperado sua alta hospitalar.

Mas o fato é que há muitos anos o apresentador dependia cada vez mais da Globo do que de si mesmo para segurar a audiência do seu programa. Quadros de sucesso da atração (como Dança dos Famosos e o Show dos Famosos) só são possíveis porque é a Globo quem adquire, a peso de ouro, os formatos internacionais. E os quadros são estrelados, em seus destaques, pelo elenco da casa.

Modelo comercial

Há ainda um fator primordial nesse caso todo. Apontado como o maior salário da casa, Fausto Silva desfrutava, por próprio mérito, de uma condição muito específica na emissora. Muito próximo e amigo do mercado publicitário, o apresentador tinha contatos diretamente com anunciantes e agências de publicidade para captar anúncios e merchans para o seu programa. Não há nada parecido dentro da Globo, pois todos os contratos de publicidade são realizados por meio do departamento comercial.

Essa qualidade do apresentador que acumula intermediação de relação comercial, pelo visto, não parece mais ser interessante para a emissora. Há grandes mudanças no modelo de negociação de publicidade entre televisões e anunciantes atualmente, muito por conta das movimentações que os meios digitais provocaram no mercado. Vale lembrar que toda a equipe, custos e infraestrutura do Domingão são despesas da Globo.

E, cá entre nós, com as redes sociais e YouTube ao alcance de todo mundo, quem mais espera até a noite de domingo para ver as videocassetadas? Esse tipo de produto, com tantos virais na internet, era até duas semanas atrás ainda o ponto alto do Domingão do Faustão. Pacotes de um ano com esses vídeos são vendidos fartamente nas feiras internacionais de programação com valores a partir de US$ 10 mil (cerca de R$ 50 mil). Ou seja, qualquer programa fora da Globo também tem condições de adquirir.

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