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minissérie

Historiador diverge sobre protagonista de Passaporte para Liberdade: “Avisei a Globo”

Fábio Koifman diz que Aracy de Carvalho não deve ser considerada heroína

Publicado em 30/12/2021
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Passaporte para Liberdade trouxe para a TV aberta uma história real. A minissérie, produzida por Jayme Monjardim, conta a trajetória de Aracy de Carvalho (Sophie Charlotte) junto de João Guimarães Rosa (Rodrigo Lombardi), ela atuante do consulado do Brasil em Hamburgo, na Alemanha, ele diplomata.

O roteiro aborda o trabalho da brasileira à época da Segunda Guerra Mundial, quando teria ajudado, de certa forma, a conceder vistos para inúmeros judeus que fugiam do regime nazista.

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Mas enquanto a minissérie global destaca que Aracy precisou fazer tudo isso ‘por debaixo dos panos’, ou seja, ajudar os judeus ilegalmente, alguns historiadores contestam a versão.

É o caso de Fábio Koifman, que diz ter duas décadas de experiência com pesquisa relacionada ao Holocausto e demais fatos desse período.

À BBC News Brasil, o historiador declarou que investigou os vistos concedidos a alemães no consulado de Hamburgo entre 1938 e 1939, época retratada em Passaporte para Liberdade. “As evidências mostram que não havia heroína nenhuma nesta história”, pontua Koifman, já indo contra o que prega a minissérie e diversos outros registros biográficos sobre Aracy de Carvalho.

Embate

A argumentação de Koifman e de outro historiador, Rui Afonso, que corrobora com as afirmações do colega, estão presentes no livro Judeus no Brasil: História e Historiografia, lançado este ano. Uma delas indica que os vistos autorizados para os judeus que saíam de Hamburgo para o Brasil não passaram por qualquer irregularidade.

Isso rebate a tese da produção exibida nas últimas duas semanas na Globo. Nela, Aracy teria falsificado algumas dezenas de registros, apagando a letra J dos documentos, inclusive, e ainda colocado os papéis em meio a outros para que o cônsul desse sua ‘canetada’.

“Mas todos os passaportes tinham J”, coloca Koifman, que desaprova a teoria de que a mulher de João Guimarães Rosa escondia os vistos junto à papelada do chefe. “O cônsul nunca assinaria algo sem ler. E não é um único documento, são vários. Seria mais crível se dissessem que ela falsificou assinaturas“, explica o pesquisador. “Quem diz isso não sabe muito bem como funciona a burocracia diplomática”, alfineta.

Vistos permitidos para judeus

Se a reprodução da vida de Aracy de Carvalho neste período trágico da História mundial foi intrinsecamente fiel, não há como ter 100% de certeza. Monjardim e sua equipe se basearam no livro Justa ‒ Aracy de Carvalho e o resgate de judeus: trocando a Alemanha nazista pelo Brasil (2011) para escrever o roteiro e nele consta algo que é real: Aracy foi reconhecida internacionalmente como o ‘Anjo de Hamburgo’.

Ela foi homenageada em 1982 por Israel como Justa entre as Nações, título concedido a não judeus que se arriscaram para salvar judeus do horror do Holocausto. Foi a primeira brasileira a receber a condecoração. O segundo e último foi o embaixador Luiz Martins de Souza Dantas, a quem o historiador Koifman atribui as benfeitorias registradas na História, diferente do que pensa de Aracy de Carvalho.

O pesquisador garante que a personagem interpretada por Sophie Charlotte não fez nada de errado, uma vez que, segundo ele, a concessão dos vistos para os judeus era permitida sem qualquer intervenção do consulado. Ele diz que em caso de irregularidade, o governo certamente exigiria justificativas, algo que não teria ocorrido.

“Houve uma boa vontade ou outro motivo para a concessão dos vistos? Pode se dizer que sim, mas não há indícios de algo além disso”, atestam Koifman e Rui Afonso.

Avisou a Globo

Koifman relata que houve uma espécie de ‘erro de interpretação’ na hora de avaliar esse trecho da história de Aracy de Carvalho. “As pessoas estavam assustadas, foram ao consulado, uma pessoa que falava alemão as recebeu com educação e encaminhou seu pedido. Depois, aconteceu o Holocausto e elas entenderam que aquele visto salvou a vida delas. É natural que eles sejam gratos a ela”, explica.

Ele revela que chegou a dividir os resultados de seus estudos com a produção da minissérie. “Avisei a Globo. Eu fiquei pensando: ‘Eles vão entrar nessa furada?’. Não podia me omitir. Mas eles continuaram a tocar o barco, lamentavelmente”, afirma Koifman.

Sobre as críticas do historiador, a Globo apenas disse que “respeita o ponto de vista” e pontuou que Passaporte para Liberdade se trata de uma obra ficcional. “Contamos com uma equipe de pesquisa qualificada, que trabalhou por mais de três anos no projeto, reunindo registros históricos, documentos, publicações e materiais em vídeo disponíveis em museus e acervos respeitados pelo mundo. Ainda foram entrevistados historiadores, diplomatas de carreira, familiares de judeus salvos por Aracy – cujos depoimentos exibiremos ao final dos capítulos – e parentes dela”, escreveu a emissora à BBC.

Leia outros textos da colunista AQUI.

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