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Chikungunya, dores e protesto: Antes de morrer Léa Garcia criticou convites: “Mãe preta ou mãe de santo”

Atriz sofreu um infarto em Gramado, onde receberia uma homenagem

Publicado em 16/08/2023

A atriz Léa Garcia faleceu nesta terça-feira (15) aos 90 anos de idade após sofrer um infarto em Gramado, no Rio Grande do Sul, cidade na qual estava para receber uma homenagem no tradicional Festival de Cinema.

Veterana das artes, sobretudo da representatividade negra na teledramaturgia, Léa inicou sua carreira em 1952 no Teatro Experimental do Negro, exibido pela TV Tupi.

Recentemente ela pode ser vista na reprise de O Clone no Vale a Pena Ver de Novo interpretando tia Lola, irmã de dona Mocinha (Ruth de Souza) e tia de Deusa (Adriana Lessa). À época desta novela Léa tinha 69 anos de idade.

Atriz Léa Garcia
Atriz Léa Garcia

Léa Garcia celebrou, nos palcos, os 70 anos de carreira

Em 2023 Léa completou 70 anos de carreira e, de certo modo, comemorou o grande feito em cima nos palcos. Ano passado ela compôs o elenco da peça A Vida Não É Justa, ao lado de grandes nomes da dramaturgia, como Tonico Pereira e Emiliano Queiroz.

“É uma trajetória de conquistas diante de todas as dificuldades e mazelas existentes. Então, tenho um sentimento de resistência e força. Me sinto feliz pela possibilidade de ainda estar trabalhando”, declarou Léa Garcia ao site Heloisa Tolipan.

Léa Garcia está na peça A Vida Não É Justa ao lado de Emiliano Queiroz (Reprodução)
Léa Garcia está na peça A Vida Não É Justa ao lado de Emiliano Queiroz (Reprodução)

Sequelas persistentes de doença

Apesar de ter transparecido estar firme e forte nos palcos, Léa Garcia enfrentava dificuldades de saúde especificamente por conta das sequelas da chikungunya, doença transmitida pelo mosquito Aedes Aegypiti, o mesmo que transmite a dengue.

“Tenho energia, mas também uma neuropatia (doença que afeta os movimentos) nas pernas. Devido a chikungunya, eu estou com a minha coluna e as minhas juntas comprometidas e caminhando muito mal. Acho que a cura está sendo mais difícil devido à artrose. É desesperador“, revela a artista.

Léa esclareceu detalhes do que lhe aconteceu e de como sua saúde ficou debilitada. “Logo no início, fiquei de cama, fui hospitalizada, depois, fiz dois filmes. Ia para São Paulo na cadeira de rodas, mas, em cena ficava em pé, tinha que trabalhar. É muita força de vontade, mas, depois de três anos sentindo dor nas articulações, nas pontas dos dedos, perdendo a sensibilidade deles, estou começando a cansar das dores que sinto”, disse a veterana das artes.

Léa Garcia caracterizada para a série Arcanjo Renegado, do Globoplay (Divulgação)
Léa Garcia caracterizada para a série Arcanjo Renegado, do Globoplay (Divulgação)

Léa contou que, para melhorar, apostou suas fichas em medicina alternativa. Com as dificuldades motoras e dores, ela explicou que ficou complicado aceitar todos os projetos para os quais lhe chamavam.

“Meu caminhar não está bom, não está perfeito. Eu não posso dominar a cena em termos de caminhada, de ocupar o palco. Tenho até recusado alguns trabalhos. Mas, agora, estou acreditando que vou melhorar bastante com acupuntura, medicina chinesa. Tenho certeza, vai dar certo”, admitiu a artista que faleceu nesta terça (15).

Léa Garcia fez críticas ao etarismo e racismo na teledramaturgia

Atuando ao lado de Emiliano Queiroz, que também celebra 70 anos de carreira, Léa Garcia aproveitou para abrir o jogo sobre o etarismo dentro da classe dramatúrgica. Ela lamentou a falta de oportunidades para os mais velhos na TV, no cinema e nos palcos, e comemorou o fato de alguns veteranos conseguirem um ‘lugar ao sol’.

“Fico cheia de dedos de falar da genialidade desses atores que conseguem, não digo nem ofuscar, mas um destaque entre os mais jovens que estão produzindo bem mais em termos de trabalho”, disse a artista, cujo último trabalho na televisão foi Arcanjo Renegado, série do Globoplay, em 2020. Lembrando que ela estava escalada para participar do remake de Renascer, com início previsto para janeiro de 2024.

Léa Garcia (Reprodução)
Léa Garcia (Reprodução)

Sobre a sua situação ao ser chamada para interpretar papéis determinados, Léa Garcia fez um manifesto. “Estão me condicionando muito de um certo tempo para cá a fazer somente mãe preta ou mãe de santo e isso me incomoda bastante. Acho que posso fazer uma outra personagem. Não é porque estou com 89 anos, que eu só possa fazer esses tipos. Estão me limitando”, criticou.

Vale lembrar que após viver a tia Lola em O Clone, Léa Garcia foi para a Record TV, onde fez Cidadão Brasileiro, Luz do Sol, A Lei e o Crime e A História de Ester. Depois retornou à Globo para compor o elenco de Êta Mundo Bom e Sol Nascente.