Amor pelo veículo ou simples vaidade: o que leva alguém a trabalhar na TV?

O sucesso ou o fracasso das trajetórias costumam ter muito a ver com a falta de um item e a abundância de outro

Publicado há um mês
Por Christiano Blota
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Uma coisa que me marca em se tratando de TV é perceber que algumas pessoas exercem o ofício por amor e outras, por vaidade. Não consigo precisar o que veio primeiro a vaidade ou o trabalho, isso na vida não somente na TV.

Tem ocasiões em que a pessoa ingressa na TV para mostrar a beleza em primeiro lugar – como se fosse o mas importante. Que beleza? A sociedade em que somos criados prega um corpo padrão, como se não tivessem outros interessantes e bonitos. E a TV colabora para manter a triste realidade.

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Há outras pessoas que querem participar do mundo televisivo por “glamour”. Sonham em ser fotografadas, desejadas, olhadas e até criticadas. Mas se esquecem do verdadeiro propósito de suas missões, que inclui ajudar verdadeiramente e não para parecer “bonito e legal” frente à sociedade.

Se, por acaso, uma pessoa não se encaixa ao padrão estético exigido pela TV, aceita encarnar um personagem que chame a atenção, até pelo aspecto negativo. Quantos de nós não paramos em frente à tela para ouvir notícias sobre determinadas celebridades que seriam cômicas se não fossem trágicas?

Em televisão há pessoas, bonitas, inteligentes, interessantes, pacatas, com energia, engraçadas, carismáticas, enfim, moldadas para servir até como personagens de uma vida real. Se comportam de uma maneira na frente da TV e são completamente diferentes por trás da tela.

Mas de nada valem os atributos se não existir apenas um substantivo: “vocação”. Por trás da palavra há um mundo de significados, que descobrimos com o tempo, e o dicionário não consegue descrever.

A pessoa com vocação tem o trabalho como prazer, tem uma vida plena porque a responsabilidade é uma extensão da vida social – e o contrário também vale.

Podemos estender o assunto para novela, filme, telejornal, programa de auditório, entrevistas. O inimigo da vocação muitas vezes se chama vaidade, e sucesso é acidente de percurso.

Algumas vezes alguém tem menos vocação, mas insiste em trabalhar nas telas para se olhar no espelho e dizer: “Espelho, espelho meu, existe uma pessoa mais fantástica do que eu?”.

E para entrar em TV vale tudo. A competição não tem regras. Até fofocas bizarras aparecem na internet, geralmente de conteúdo sexual. A pessoa não se ligou que felicidade é um processo interno.

Então alguém fala que transa de ponta-cabeça, outro vem dizer que nasceu com algo diferente no corpo – claro que é ligado ao erótico. Para chamar audiência para si e continuar na TV vale tudo, como no título da famosa novela da Globo, escrita por Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères em 1988.

Eu me surpreendo com a criatividade alheia. A pessoa não tem pudor em chamar atenção, não se envergonha. Ela acredita na velha história de chamar a atenção pelo negativo e, com o tempo, conseguir audiência e dinheiro.

Mas raramente a fórmula funciona se não há vocação. A pessoa fala que dorme com cinco na cama e vira notícia, mas no dia seguinte vai aparecer outra que dorme com dez no telhado da casa, de meias. Sendo assim, entramos no mundo sem fim das notícias bizarras, sem propósito e sem futuro.

Isso se deve muito a alguns profissionais que direcionam certas pessoas a determinado caminho – se dizem coachs. Aquela história de sempre: “Você aparece na TV e redes sociais, vai bombar e vão te convidar novamente para uma novela, filme, jornal”. Será? O profissional acredita que vai voltar para a tela. Na maioria das vezes, isso não acontece.

E fica o gosto amargo de histórias mal contadas e uma vida que não se apaga no Google. O mundo prova que ninguém é eterno. Com exceções de pessoas que se tornaram “mitos”, por infindáveis combinações de capacidade, networking e sorte, o resto da TV acaba na infindável porta do esquecimento.

Por isso, a necessidade de se fazer o que se gosta e trabalhar para quem se ama. O profissional que está fazendo sucesso será esquecido, por maior que seja. Quantas vezes presenciamos choques de geração. O mais velho está falando do Chacrinha e a outra geração pergunta: “Quem foi esse?”.

E as pessoas que o acompanhavam sabem que ele foi um fenômeno da comunicação, o Brasil inteiro conhecia. Podemos estender o assunto tendo como tema atores, atrizes, apresentadores, comentaristas, jornalistas, enfim, a lista é grande.

Por exemplo, aquele ou aquela que arrebentou nos anos 1980, levou milhares de fãs para o cinema e TV, hoje está recluso, aparecendo uma vez ou outra. Não raramente vários ganhadores do Oscar anunciam aposentadoria de maneira precoce, com sintomas de depressão, associados à falta de repercussão e convites para festas e atuações na tela.

Quantas vezes me encontrei com personalidades que faziam o meu coração disparar de felicidade, mas meus filhos não sabiam quem eram. Eles estavam interessados nos modelos que hoje os representam. Os meus símbolos de orgulho não correspondem aos deles.

Então, a conta é simples. Faça televisão se realmente você gosta. Em tempos de competição no mercado, muito além das TVs abertas, dinheiro é escasso, trabalho muitas vezes é mais do que o previsto e sua imagem não vai ficar muito tempo no ar.

Trabalhe por amor, para se sustentar e ajudar quem você ama. Não perca sua saúde física e mental em troca de falsos sorrisos. Se a chance na tela aparecer, aproveite. Se a porta da emissora se fechar para você, não tente pular o muro, não se desespere. Há um mundo lindo e real por trás da tela.

*As informações e opiniões expressas nesse texto são de total responsabilidade de seu autor e podem ou não refletir a opinião deste veículo.

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