“Sempre tentei ser como jornalista o mais repórter possível”, diz Mauro Beting, com três décadas de jornalismo esportivo

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Amigos da coluna Por Trás da Tela, mais um convidado de honra por aqui, abrindo nossos trabalhos de 2021 e com renovados agradecimentos pela companhia em 2020. Nosso primeiro entrevistado do ano é um dos melhores jornalistas esportivos que conheço: Mauro Beting.

Um profissional com 54 anos de Palmeiras e 33 de jornalismo, sendo 30 deles dedicados ao ‘jornalismo futebolístico’, como ele mesmo define. Com uma história rica e de muita dedicação ao trabalho, Mauro conta algumas curiosidades aos amigos do Observatório da TV, sobre o início de sua trajetória e o pai, o saudoso Joelmir Beting.

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CHRISTIANO BLOTA – Mauro, é um prazer tê-lo aqui na coluna Por Trás da Tela, muito obrigado.

MAURO BETING – Eu agradeço, Chris…

CB – Nós nos encontramos algumas vezes no mundo corrido do jornalismo, mas agora, com a conversa marcada, você me realiza a vontade de conversar com mais calma, como se eu estivesse bebendo um cafezinho. Eu começo com a pergunta: “Você escolheu o jornalismo como profissão, ou você foi escolhido pelo jornalismo?”.

MB – Chris, você pode falar algo parecido, claro, cada história é uma, mas você tem um belíssimo sobrenome a zelar. E você zela muito bem o sobrenome, e é um desafio que eu tento há 33 anos como jornalista, há 30 anos fazendo jornalismo esportivo e 54 anos como palmeirense.

A questão é bem colocada porque eu brinco que meu pai, Joelmir Beting, deu o golpe do baú ao se casar com a filha do diretor da Rádio 9 de Julho, onde ele trabalhava, que era a produtora, dona Lucila (Lucila Zioni Beting). E meu avô era advogado, não somente jornalista, era diretor da rádio, um grande especialista em filatelia, fundou a Associação Brasileira dos Jornalistas de Filatelia, e sempre um grande entusiasta de texto e de estudo.

Então, meu avô por parte de mãe era jornalista, minha mãe fez alguns trabalhos de produção na época de faculdade, depois trabalhou diretamente com meu pai – posso dizer que ela fez muitos trabalhos jornalísticos. Meu pai jornalista, a irmã da minha mãe, casada com a irmã do meu pai, é jornalista e mãe de dois jornalistas.

No meu primeiro casamento, a mãe dos meus filhos… jornalista. Para resumir, eu sou neto, sou filho, sou sobrinho, sou primo, sou cunhado, sou concunhado, ex-marido e sou pai de pelo menos um jornalista e o outro filho faz cinema. Então, é uma raça desgraçada.

Quem é jornalista na minha família casa com jornalista, quem não é também casa – no meu caso, descasa. Nós temos um levantamento básico, tanto dos Beting, quanto dos Zioni (lado da minha mãe), e contamos mais de 40 na família.

Eu cresci em um ambiente no qual meu pai, Joelmir Beting, trabalhava como comentarista na TV Record, comentarista na Rádio Jovem Pan e escrevia uma coluna diária na Folha de S. Paulo. Aprendendo a ler (indiretamente ou por osmose, sei lá), eu via o nome do meu pai escrito e conseguia entender alguma coisa.

Eu também ouvia o rádio, quando eu ia para o colégio, acompanhava o Jornal da Manhã da Jovem Pan e meu pai comentava. À noite, na TV Record, depois do James West (série de TV), entrava meu pai falando. Depois ele foi pra Bandeirantes, Globo e tal… Eu estudava, comecei a trabalhar, e só 17 anos depois fui convidado pelo Band Sports para um programa com meu pai (o Beting e Beting). Nem nepotistas direito meu pai e eu conseguimos ser, ainda bem.

Eu cresci em uma época (antes do videocassete) na qual não era normal ver o pai na televisão. Aquilo era fascinante, como até hoje, e eu fiquei tocado, era natural. Eu também fiz faculdade de direito na Universidade de São Paulo (USP). É igual a filho de músico, os caras tocam música no banheiro. Você fica influenciado. Então, era natural que influenciasse meu pai e todos os membros da família, como a minha mãe, que trabalhava diretamente com meu pai. Ela é que realmente entendia de economia.

Não existia nem o termo ‘multimídia’, mas meu pai já era. E hoje sou comentarista da Jovem Pan, comentarista do SBT, comentarista da TNT, blogueiro do Yahoo! (tenho um programa de entrevistas que não é somente de futebol), sou editor da revista Corner, sou um dos sócios do projeto MEMOFUT, que resgata a memória do futebol, com mais de 6.500 peças relacionadas ao esporte, sou comentarista do videogame PES, estou finalizando meu quarto documentário, já escrevi 22 livros e estou escrevendo outros 10.

Sou curador do Museu da Seleção Brasileira, um dos curadores do Museu Pelé, com outros projetos na área e outros que eu ainda não posso falar, porque são embrionários. Graças a Deus é muito trabalho e dá para dizer que eu estou muito feliz de seguir, se não honrando o sobrenome Beting, fazendo aquilo que eu fui imerso pela família e estou submergindo até então.

CB – Com certeza está honrando, posso te falar porque te acompanho. Aliás, você citou seu pai, Joelmir Beting. Ele começou no esporte, foi para a economia e era um craque para facilitar o entendimento do assunto. Você mudou de segmento no jornalismo, ou sempre permaneceu no esporte?

MB – Eu de fato mudei. Foi a única coisa que meu pai falou para mim. Eu ainda adolescente e ele, já sabedor que eu adorava escrever e falar, embora muito tímido, me disse: “No início você vai trabalhar muito no esporte, vai cobrir treino, trabalha praticamente todos os dias, todos os finais de semana. Você gosta de política, eu gosto de música. De repente tenta outra coisa”.

E foi o que eu fiz. No terceiro ano de faculdade, tanto de direito quanto de jornalismo, eu comecei a trabalhar na TV Bandeirantes, de onde meu pai havia saído dois anos antes para trabalhar na TV Globo. Então, muitos dos meus chefes e companheiros eu conhecia de festas em casa, ou das vezes em que eu ia com meu pai ou minha mãe à Band – ela trabalhava como produtora do meu pai, e depois foi para a Globo com ele.

Para eu começar a carreira foi muito fácil. Passar o crachá pela primeira vez em 10 de março de 1987 na Bandeirantes, para trabalhar como estagiário da chefia de reportagem, foi muito fácil. Mas a partir do primeiro dia eu já tinha uma pressão enorme. Até porque eles me conheciam como Maurinho, ou como Beting, e tinha que deixar de ser Mauro Beting e sim o Mauro, mais um “foca”, um estagiário qualquer.

E desde então me cobram. No começo trabalhei na chefia de reportagem do jornalismo da TV e rapidamente dei sorte de assumir a produção executiva do programa Crítica e Autocrítica, que era de entrevistas políticas e econômicas, em parceria com a Gazeta Mercantil.

E isso foi me levando a conseguir uma vaga na Folha da Tarde – em que eu entrei por concurso –, para ser repórter de política e de economia. Quando virei esse repórter de política e economia, eu tive a felicidade de cobrir a primeira eleição presidencial depois de quase 30 anos, em 1989. Passada a eleição, em janeiro do ano seguinte, o Chico Lang, que era meu chefe de redação, disse: “Mauro, você gosta de escrever. Escreve uma crônica sobre os sete anos da morte do Garrincha, o maior camisa 7”. Eu escrevi, ficou legalzinha, o editor do jornal, Adilson Laranjeira, gostou e perguntou: “Você quer cobrir a Copa da Itália? Você se vira bem em italiano e vai cobrir o outro lado da Copa”.

Imagina. Eu tinha 23 anos e cobri uma Copa que jamais poderia imaginar. Eu trabalhava com política, economia e já escrevia sobre música. Tinha até um programa na Rádio Brasil 2000 com o grande Kid Vinil, às segundas-feiras à noite, em que eu falava da minha paixão pela música. Além disso, eu era um dos colaboradores da revista Bizz, da Editora Abril.

Foi quando o Hélio Mauro Armond, outro secretário de redação da Folha da Tarde, pediu uma ajuda para a editoria de esportes, um caderno gigante com 16 páginas durante a Copa do Mundo. Tinha uma coluna chamada ‘Dois Toques’, notícias que chegavam por Telex, e no primeiro dia da Copa não tinha nada. Então, comecei a colocar história do futebol, que eu sempre estudei muito, e o pessoal começou a gostar. A coluna, que deveria durar um mês, permaneceu depois da Copa.

Em seguida fui convidado para ser comentarista da TV Gazeta, no Mesa Redonda, com Roberto Avallone. Depois de um ano e um mês, eu estava na Rádio Gazeta, que remontava o Departamento de Esportes. Com isso, eu tive que largar a reportagem de política, largar os quatro anos de FIAM como professor, e a partir de 1993 fiquei somente com o futebol.

Eu comecei como colunista com 23 anos. Não passei por reportagem, mas sempre tentei ser como jornalista o mais repórter possível, sempre tentando buscar a melhor versão dos fatos. Mas sem a pretensão de achar que eu sei alguma coisa, ainda mais algo tão apaixonante e passional como o futebol.

No esporte eu fiquei e me apresentei desde o começo como palmeirense, porque meu pai sempre foi uma bandeira do clube muito famosa, tanto que a sala de entrevistas do Allianz Parque se chama Joelmir Beting. Há também a frase famosa que ele criou para o Palmeiras, exibida em dois lugares do estádio, e hoje na academia de futebol do clube, na Barra Funda: “Explicar a emoção de ser palmeirense a um palmeirense é totalmente desnecessário. E a quem não é palmeirense, é simplesmente impossível”.

Então, sempre me apresentei como palmeirense, até porque todo mundo que me conhecia sabia. Além disso, sou mais cobrado pela torcida do Palmeiras do que qualquer outra coisa. Eu acho que você tem que assumir a paixão, eu tenho direito como ser humano de ser palmeirense e tenho o dever como jornalista esportivo de não distorcer o Palmeiras

E, convenhamos, não sou pago para ser palmeirense. Sou pago para tentar ser isento, imparcial, objetivo e independente. Nem sempre consigo, porque sou muito mais pressionado e cobrado pelos palmeirenses do que por qualquer outra torcida.

CB – Mauro, na minha opinião poucos jornalistas conseguiram credibilidade como você, apesar de revelar o time de coração. Tem uma explicação?

MB – Eu acho que é uma característica minha, não vou dizer que é virtude nem defeito, mas acaba me ajudando. Eu tento ser o mais personalista possível no exercício de oficio, como eu fui na época em que era repórter de política e também quando escrevia sobre música. Eu tento emitir justamente a minha opinião, mas tento me identificar com quem está do outro lado, no caso, um torcedor. E no fundo, é a paixão que a gente tem por um time de futebol que me faz ser jornalista.

Não sou workaholic, mas sim um ‘worklover’, até porque precisa ter paixão para se falar de futebol. No caso específico, o amor incondicional que eu tenho pelos meus filhos, pelos meus pais e pelo Palmeiras. Meus 22 livros são oficiais do Palmeiras, como, por exemplo, sobre o goleiro Marcos, o São Marcos – Nunca Fui Santo. Eu tenho o livro O Dia Em que me Tornei Palmeirense, que eu brinco que é meu único livro de ficção, que é o dia da minha concepção.

Então, o futebol tem essa coisa. Eu amo meu filho e odeio o seu. Às vezes eu odeio mais a sua família do que a minha própria família. Essa paixão pelo Palmeiras poderia ser pelo Flamengo, pelo São Paulo, Bayern de Munique ou outros clubes, mas no fundo só muda de endereço. Claro que as características de cada grupo vêm de cada pessoa. Há suas peculiaridades no amor do corintiano, do santista, mas sempre é um amor incondicional. Como eu amo meu filho, você ama o seu e ninguém ama mais que o outro. Pode ter um pouquinho mais de amor, mas no fundo só muda de endereço.

Eu tento me colocar como torcedor de outros clubes como eu já me coloco como palmeirense e acho que tenho um bom conhecimento histórico, uma ótima memória, uma boa capacidade de observação e sensibilidade para acatar as características do corintiano, do flamenguista, do atleticano. Por isso é que eu tenho livros oficiais do Atlético Mineiro, do Flamengo.

Eu tenho mais textos publicados em livros do Corinthians do que livros de outros autores do Palmeiras. Eu fico lisonjeado quando, por exemplo, o Corinthians fez 100 anos em 2010 e o texto que estava fixado na sede da Gaviões da Fiel era meu, não era do Juca Kfouri. Eu acho impossível que o Juca Kfouri escreva algum texto que seja fixado na Mancha Verde.

Não estou falando que eu sou melhor que ele, mas é uma característica do meu trabalho, que é tentar entender o outro lado. Até porque é o exercício do profissional em jornalismo, não só o esportivo. Você tem que subir em cima do muro, até porque em cima do muro nós vemos vários lados da questão. Insisto, isso vale para o esporte ou qualquer área do jornalismo, até como cidadão.

Ficando em cima do muro, tentando ser isento, que não é um palavrão, ser isento é um dever de ofício, vamos conseguir ter a pluralidade e dessa maneira ser mais completos. No futebol que já é, por definição, passional, subjetivo, muito apaixonado, se a gente tentar ficar em cima do muro, nós vamos ter uma visão mais global e vai gerar uma identificação maior.

Eu fico muito feliz de nunca ter tipo problemas na minha carreira. No Pacaembu, na Neo Química Arena, Vila Belmiro, Maracanã e São Januário, eu nunca tive problemas. Às vezes eu tenho mais problemas no Allianz Parque, no antigo Palestra Itália, onde também sou muito bem recebido.

O Mauro Beting palmeirense também desgosta de muitas coisas que o Mauro Beting jornalista comenta sobre o Palmeiras. Mas é meu ofício. Eu sou pago para ser jornalista. Não sou pago para ser palmeirense, até porque é uma paixão que não tem preço, e meu ofício impede de ser.

Eu acho que consegui ter essa capacidade de compreender tanto o outro lado que muitas vezes fico feliz quando um corintiano ou um vascaíno diz: “Você, às vezes, escreve do meu time com mais paixão, conhecimento de causa e sabedoria do que o próprio torcedor do clube”.

CB – Eu acompanho seu trabalho e sinto que você é meticuloso, com números, dados, você comenta o esporte com base em pesquisa e não em “achismo”. Até como dica para quem está começando na área do jornalismo esportivo, de onde vem sua base de pesquisa? Como você pesquisa, se organiza?

MB – Chris, eu sou uma bagunça. Até as pessoas que entendem de horóscopo chutam qualquer um, menos o meu, que é Virgem. O virginiano é meio metódico, não tenho nada disso. Mas dentro da minha bagunça caótica eu sei onde estão as coisas, meus livros, meus dados. Então, o que eu faço? Tenho por sorte uma grande memória (ainda, sabe-se lá até quando), e dentro do possível anoto tudo, até porque a grande memória às vezes falha. E eu fui um dos precursores dos comentaristas de televisão a usar estatística – na época no SporTV, e um pouco antes na TV Gazeta, antes de ir para a Bandeirantes em 1997. Até ficava meio chato falar em números.

E hoje você tem acesso no tablet, você tem estatísticas melhores e mais elaboradas na internet. Mas eu entendo que os números, se não indicam muito, dizem alguma coisa, mesmo no futebol, que é injusto, incerto ou caótico. Até porque quem faz mais números ganha o jogo. Não se pode desprezar os números, mas não pode ser escravo deles, ou até os torturar.

Então, eu tento me programar estudando muito. Eu tenho uma biblioteca grande. Eu tenho uma coleção de mais de 16 mil jogos completos, que eu comprei de um querido amigo, o narrador Gustavo Roman, que infelizmente morreu de covid-19. Eu procuro estudar muito, ver bastante, ler muito, conversar muito e ouvir muito. Embora eu fale muito, eu também escuto.

É uma vantagem que eu tenho de nascença. Não foi detectado oficialmente, mas todos os terapeutas e psiquiatras acham que eu tenho transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH). Eu desenvolvi uma característica que me ajudou muito no exercício do trabalho, que é acumular coisas. Eu faço programa de debate no rádio e na TV, ao mesmo tempo em que eu estou vendo um jogo ou escrevendo um texto.

Eu escrevi o livro oficial do Centenário do Palmeiras em 2014, enquanto eu fazia o noticiário do Central Fox. Enquanto o apresentador José Ilan me perguntava alguma coisa sobre o Botafogo, eu comentava, e logo em seguida voltava a escrever o livro – ao mesmo tempo prestava atenção no que estava sendo mostrado.

Eu consegui desenvolver uma coisa meio multifacetada, por isso que eu dou conta da demanda, faço muita coisa e acabo me virando. Mas é assim realmente que eu me preparo, eu estudo, porque eu acho que a gente só pode chutar dentro de campo. E mesmo dentro de campo os atletas são cada vez mais preparados, condicionados e treinados, e do lado de fora temos que fazer a mesma coisa. Acho que há 30 anos eu tento fazer direitinho.

Esse papo rendeu, amigos leitores, e por isso teremos publicada a entrevista de Mauro Beting em duas partes, uma nesta quarta-feira (17) e outra na próxima quarta-feira (24). Na segunda parte, nosso convidado fala de um pouco mais da paixão pelo Palmeiras, quando cobriu a final da Libertadores pelo SBT, o desempenho do clube no campeonato Mundial e responde a tradicional pergunta da Coluna: “Quando o Mauro está Por Trás da Tela, o que ele gosta de fazer?”. Até lá!

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