“Ninguém vai empregar um antibolsonarista convicto como eu”, diz o premiado e combativo Fábio Pannunzio

Vencedor de dois Prêmio Esso e próximo dos 40 anos de atividade, o jornalista fala dos bastidores da profissão

Publicado há um mês
Por Christiano Blota
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Meus amigos, hoje na coluna Por Trás da Tela recebo o jornalista Fábio Pannunzio. Fábio é um dos melhores profissionais da geração, vencedor do cobiçado Prêmio Esso por duas vezes (em 2012 e 2014) e ainda foi finalista do mesmo prêmio em 2015.

Com uma vasta carreira jornalística, Fábio é o tipo de profissional tão experiente que não precisa ser entrevistado, parece que ele advinha as minhas perguntas. Mais engraçado do que isso, com uma habilidade rara, talvez nem ele perceba, me entrevistou durante a “minha entrevista”.

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Hoje ele é o dono da TV Democracia, que pode ser acompanhada no YouTube. Nela, Fábio conversa com personalidades dos mais variados segmentos, promove debates políticos, emite opiniões polêmicas e necessárias em um meio de comunicação que dança a mesma música.

Você pode até não concordar com ele em alguns aspectos, ou em vários, mas é inegável a autenticidade de Fábio Pannunzio. É um entrevistado que vale o propósito da coluna, que é contar os bastidores da TV, internet, enfim, o que se passa internamente nas empresas veiculadoras de notícias ou o que se passa Por Trás da Tela e poucos sabem.

Comecei a conversa pedindo para o Fábio falar um pouco da carreira. E antes de terminar a pergunta…

FÁBIO PANNUNZIOEu trabalho há 39 anos e meio como jornalista, comecei em 1981, logo que eu passei no vestibular da Cásper Líbero. Trabalhei durante todo o período da faculdade. Comecei pela Jovem Pan, depois fui para o SBT, TV Manchete, Globo.

Foi tudo casual. Eu nunca pensei em ser jornalista, eu queria ser sociólogo e não tinha vestibular aberto (Sociologia) quando fui prestar em junho de 19 81 e fui para a Cásper.

Na época a comunicação não estava super valorizada e foi sorte porque eu teria sido um péssimo sociólogo, que ficou tão na moda depois da década de 90. Enfim, é difícil sobreviver como sociólogo no Brasil. E o “glamour” se perdeu com o Fernando Henrique Cardoso.

Eu trabalhei a vida inteira na televisão e na maior parte deste tempo, intervalo de 26 anos, eu fiquei na Band. Naquele tempo era muito diferente de hoje porque tinha projeto de carreira e, como havia pouca gente qualificada no mercado, era fácil você trocar o emprego. Principalmente quando você passava pela Globo, que dava uma espécie de “chancela” para nós.

Eu fui um profissional muito feliz porque consegui um espaço privilegiado, logo virei repórter especial, fui tratar de pautas que eu mesmo desenvolvi, me deixaram fazer coisas importantes, como ir à Costa Rica buscar o paradeiro de Jorgina de Freitas. Fiz uma viagem inteira pelo mundo atrás do PC Farias e eu consegui localizar a rota de fuga dele no Paraguai, quando fugiu do Brasil, e as coisas foram acontecendo.

Nessa carreira tem alguns momentos para mim que foram muito incisivos do ponto de vista do significado pessoal. Consegui dois prêmios Esso, mais uma menção honrosa.

Virei âncora de telejornal, passei cinco anos neste ofício. Eu nunca apresentei de maneira definitiva. Mas nos últimos cinco anos fui âncora efetivo do Jornal da Noite, depois do Jornal da Band, assim que o [Ricardo] Boechat morreu, até que o [Eduardo] Oinegue estivesse preparado para assumir a vaga, onde ele está até hoje.

Houve um momento em que ser um jornalista, de opinião, ficou incompatível com a empregabilidade. Ou você tinha opinião pessoal nas redes sociais, que era uma novidade, ou você se licenciava e iria continuar sua carreira tranquilamente na empresa onde você estivesse trabalhando.

Mas houve um momento em que havia tanta falta de liberdade, tanta pressão política, que eu quase morri, cheguei no hospital cinco minutos antes do infarto e meu médico conseguiu evitar que o meu músculo cardíaco ficasse lesionado.

Então, eu tomei a decisão de sair daquilo. Sabe, a luta para sobreviver na redação estava muito grande, era conflito demais com chefe, com patrão, com subchefe. Essa coisa toda não é para mim, não quero, não gosto deste conflito.

Se você colocar meu nome no Google, você vai ver que eu tenho duas fotos sorrindo, uma delas não vale porque é foto para a assessoria de imprensa da Band. A outra é uma foto em que eu estou no Central Park (Nova Iorque) com a minha mulher, recém-casado, os dois muitos felizes, e não tem como você não sorrir. Mas são as únicas fotos.

Com estas referências você pode ver que eu não estava feliz. No meio do caminho teve uma encrenca com um canalha chamado Fábio Wajngarten, que é um sujeito que está na base do bolsonarismo, dando estrutura comunicacional para o que há de pior no mundo, para este lixo de governo do [Jair] Bolsonaro.

Esse cara fez pressão gigante na Band para me demitir. E uma das coisas que esse sujeito fazia era mandar todos os meus tweets para o WhatsApp do patrão. Eu estou dizendo isso para você porque eu vi isso acontecer, ninguém me disse.

O canalha pegava meus tweets e importunava o meu patrão, que você sabe, dono de televisão depende de verba de governo para viver e no momento de crise que o Brasil está vivendo a vulnerabilidade era maior. Então, o poder destes caras aumentou demais por causa da crise, e a vulnerabilidade dos patrões também.

Agora eu preciso te dizer que o meu patrão, Johnny Saad, resistiu muito, não me mandou embora. Precisou eu pedir demissão porque eu não aguentava mais esse ambiente de coação.

Chegou um momento em que eu estava começando a atrapalhar os meus colegas porque a minha presença na Band estava impedindo a emissora de ter acesso a certas negociações do governo federal, que ela precisava ter para atravessar a crise.

Então falei: “Vou-me embora daqui”. E vim para a internet. Eu vim experimentar o que é internet. Primeiro: porque meu telefone não tocou desde que eu saí da Band, e eu não esperava nenhum convite porque eu sabia que a minha empregabilidade seria baixa…

CHRISTIANO BLOTA – Por que você diz que esperava dificuldade em empregabilidade?

FPPorque ninguém vai empregar um antibolsonarista convicto como eu, entendeu, um sujeito que é tão estigmatizado na ceara do poder central. Eu, por exemplo, sou bloqueado do Twitter do Bolsonaro. É ridículo falar isso. Um presidente da Republica que tem a pachorra de bloquear um repórter, em um canal de informação oficial, porque ele transformou (o Twitter) em canal de informação oficial.

Aconteceu este jogo de pressão e eu resolvi encerrar esta história toda. Na recuperação da minha cardiopatia eu tomei a decisão de “pedir a conta”. Mas, antes disso, esperava a aprovação de um projeto. Um projeto de voltar a ser repórter especial. Como eu gosto de aviação, eu sou piloto, enfim, sou bom piloto (modestamente), achava que dava para conjuminar as duas coisas – aviação e jornalismo.

Eu fiz uma proposta em que uma equipe teria um avião (seria uma produtora que voa), e a gente viajaria o Brasil inteiro, nos grotões, para mostrar o Brasil que a televisão não alcança. Este projeto andou muito, mas depois ele parou e eu fiquei sem entender a dificuldade.

Quando saí, fiquei decepcionado por não dar andamento ao projeto, mas saí grato, porque a empresa pagou uma indenização bastante generosa e me permitiu abrir a TV Democracia, sabe?

A partir deste momento eu vi o quão analfabeto eu era neste mercado. Foi um ato de soberba. Você fala assim: “Eu vou abrir um negócio” e, ao invés de perguntar para o mercado o que o mercado quer de você, você quer ditar o que você sabe fazer, como se isso fosse a única coisa a agregar valor à sua empregabilidade. Não é, viu?

CB – Vou aproveitar o assunto e a sua franqueza para que você opine sobre imparcialidade no jornalismo.

FPNão existe imparcialidade. Isso é uma bobagem, não é nem um mito. Eu vejo com os meus olhos e interpreto com meu cérebro e à luz das minhas experiências. Então, não há imparcialidade. O que se tem é um conjunto de técnicas que te afasta de um jogo descarado de manipulação.

Há muito tempo na vida que eu não pretendo ser imparcial. O que eu tenho que ser é honesto. Mas aí você vai falar: “Mas imparcialidade é auditável, e a honestidade, não é? Como você vai acreditar no quão honesta a pessoa é?”. Mas parcialidade e imparcialidade também têm várias subjetividades. Então, eu acho que o jornalismo precisa ter elementos de informação, porque você não pode estar distante do fato.

Então você tem que responder as perguntas “Quem?”, “Quando?”, “Como?”, “Onde?” e “Por quê?” para compor a matéria. Não precisa escrever nesta ordem da pirâmide invertida, essa coisa toda. Mas tem que responder as cinco perguntas. Por outro lado, você pode interpretar contextualizando a notícia no mundo.

Mas é fundamental que eu diga o que eu penso para “você”, que consome a notícia produzida, iluminada pelos meus valores, mente e experiência. Para que “você” possa se defender de mim e da manipulação involuntária que eu possa exercer quando eu estou aqui catando fragmentos da realidade e transformando isso em um produto chamado notícia.

Há muitos anos que eu não persigo imparcialidade. O sujeito diz: “Vocês não são imparciais”. Eu tenho um lado. Todo cidadão tem lado. É mentira dizer que não tem lado. Todo mundo torce para um time de futebol e um partido político.

Mas se você se declarar são-paulino, isso te dá autoridade moral para cobrir o Corinthians. Entendeu? Posso falar que eu sou são-paulino e estive no Corinthians, mas a informação é essa. Se eu, por acaso, falar criticamente do Corinthians, você vai saber que eu estou fazendo isso porque sou são-paulino.

Agora, quando a gente fala: “Sou um cara imparcial e mesmo sendo são-paulino vou cobrir o Corinthians como se fosse a única coisa que existe no mundo”… É mentira.

CB – E em relação à chefia? Acho que há pessoas que não sentem mais o sangue correr nas veias. Concorda?    

Eu sempre tive problema com chefia. A relação sempre foi turbulenta. Eu sou um cara meio arredio para ordens. Eu não sou a melhor pessoa para falar disso. Eu acho que via de regra o chefe é aquele incompetente que dedicou um tempo na redação e, ao invés de produzir noticia e aprimorar um texto, foi puxar o saco do chefe maior para que ele tivesse uma chefia melhor.

Eu tive bons chefes, mas foram poucos. A maioria um bando de imbecis, carreiristas e tudo mais, com um projeto pessoal que vai muito além da capacidade e da competência técnica. Tem uns que eu tenho certeza que você conhece.

CB – Conheço, Fábio, escrevo sobre isso. Saí da Band por não aceitar esse tipo de coisa, e o comportamento gerou revolta e afastamento.

FPTem gente que faz carreira na redação puxando o saco do outro, poucos são diferentes disso. Outro tipo de chefe que tem é o troglodita, que te oprime de maneira atroz para que você faça o que ele faz, um mero cumpridor de ordens.

Talvez eu não seja a pessoa mais indicada para falar de comportamento de chefe. Eu tive muitos chefes horrorosos e pouquíssimos bons. Eu tenho certeza de que você sabe de algumas pessoas que eu estou falando, porque infelizmente trabalhamos sobre as mesmas chefias.

CB – E os chefes que queimam etapas, sem plano de carreira? Aparecem como se surgissem do nada. Nunca entendi isso. Você concorda que existe isso?

FPConcordo. O gênio. O gênio é o incompetente atroz. Quando ele é nomeado como gênio, ele teve uma experiência curta em algum lugar, que muitas vezes é propagandeada como sendo vitoriosa, essa coisa toda, mas na verdade não é nada.

É a versão que ele conta. Mas isso vale a ele uma outra posição mais importante. Às vezes um salário melhor, essa coisa toda. E ele sempre chega destruindo o ambiente onde ele está sendo colocado, dizendo o seguinte: “Está tudo errado. Esse processo é muito caro, vou diminuir, vou cortar pessoas, porque assim eu encho o bolso do meu patrão de dinheiro. Ele vai achar que eu sou um p… de um chefe, vai me dar promoção”.

É o comportamento típico do chefe canalha. Aquele que chega na redação, olha todo mundo, olha os mais velhos, e diz assim: Aquele ali eu vou cortar. Nem sabe a obra do sujeito, a história dele na televisão, nem nada. É o puxasaco típico.

Aquele que precisa mostrar para o patrão que ele é a razão de ser da vida da empresa. Ele é a razão de ser do lucro da empresa e, portanto, para aumentar o lucro do patrão ele vai humilhar colegas, diminuir estrutura, vai menosprezar a história e vai acabar fazendo com que a autoestima da redação fique lá embaixo, porque ele triunfa.

É fácil você triunfar sobre um temperamento depressivo, que é o que estes caras geram. É o pior tipo, o mais fácil de identificar e o que dura menos, viu?

Tem um posto na Band (onde trabalhamos juntos) que, se eu não me engano, nos 20 e poucos anos em que eu fiquei na emissora houve pelo menos 11 chefes em um cargo extremamente importante.

Por que é tão perecível assim? Porque esses caras não cumpriram função. Chega o gênio galante, mexe em um monte de coisas, manda um monte de gente embora, fecha vaga e a redação começa a “pipocar”. Porque está faltando gente, a audiência começa a cair.

Porque o sujeito que foi demitido é um repórter consagrado e vai para concorrência fazer o que sempre deveria ter feito, e por conta da má vontade do chefe não produzia nada. O que o patrão faz? Se irrita com o cara, manda ele embora, mas antes ele já fez o estrago gigantesco.

CB – Você por esta postura combativa foi muitas vezes vítima de fake news. Até como represália por parte dos ofendidos. Você se incomodou, não se incomodou…?

FP Sempre incomoda. Acontece que, quando aprendemos a jogar, aprendemos o outro lado que é a comunicação nas redes e vemos que “a pele fica grossa”, você aprende a apanhar. No entanto não há quem consiga conviver com bullying nas redes sociais como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Quantas vezes um grupo divulgou meu telefone e encheu meu WhatsApp de milhares de mensagens me chamando de corno, de vagabundo, coisas que eu nunca fui. Esta é a parte pela qual eu passo batido.

Mas quando começa a falar de filho, neto, honestidade pessoal e profissional, isso me dói demais da conta. E aí eu acho que a internet ensina a gente a ser lutador de MMA. Você aprende a bater. E tem que ter muito cuidado para não virarmos o que queríamos combater. Qual foi sua pergunta inicial mesmo?

CB – Sobre fake news como arma para calar um jornalista combativo.

FPO último episódio da minha combatividade, um sujeito aí, é um vagabundo da internet chamado Romulos Maya, que inventa todo tipo de coisa. Falaram até que eu era animador de baile de debutante – mas isso não foi o Romulo, não, foi o PT. Aliás, fake news todo mundo faz, não é só a direita, não.

Então tem fake news de tudo quanto é lado. O problema é que este arcabouço tecnológico é da direita porque está no poder, tem mais dinheiro, então tem mais poder e está mais visível, mas houve também pela “esquerda”.

Eu espero que a surra que a esquerda tomou com este tipo de artifício faça com que ela não se permita embarcar nessa canoa de fake news. Mas que já houve, houve sim.

E a combatividade tem um preço. Não adianta você pensar que vai ser o cara mais espontâneo do mundo autêntico e não vai pagar o preço. Vai pagar o preço. E qual é o preço? É você ficar desempregado, marginalizado do processo de produção formal e, enfim, passar privações de toda a natureza.

Privações de natureza material. Eu já vi muita gente largar a profissão porque não suporta este ambiente, sabe? Nem todo mundo tem a resistência psicológica que eu tenho para suportar estas ondas de ordens de “robôs” (internet) e tudo mais.

Agora eu preciso lembrar o seguinte: o que eu sofri não é nem a raiz quadrada do que passou, por exemplo, a Patrícia Campos Mello, ou a Constança Rezende. Porque elas não foram só atacadas na dignidade profissional, mas atacadas na dignidade feminina.

O Bolsonaro é um covarde porque ataca mulheres. Já viu Bolsonaro atacar repórter homem? Não fala para mim: “Você quer dar um furo?”. Por que não fala isso para mim? Porque ele é um covarde que sabe atacar mulher.

Ele e os filhos dele que falam que o País é de maricas. Deve estar se referindo a ele e os filhos. Não tem nada mais mariquinhas do que a maneira covarde com que eles atacam mulher. Se ele não é maricas porque só ataca mulher? A mim, por exemplo, ele nunca xingou, se limitou a me bloquear no Twitter dele. O que é ridículo.

CB – Você saiu da Band porque sentiu que não tinha muito espaço, por causa da sua opinião, enfim, o que você comentou no começo da nossa conversa. Agora você está com este projeto na internet, a TV Democracia. Queria que você falasse um pouco do seu programa.

FPOlha, na verdade é uma pequena emissora de TV, tem 32 programas, se não me engano, e estamos produzindo 60 horas de programas ao vivo no ar, de segunda a sexta. O objetivo era criar uma trincheira para defender a liberdade de expressão porque todo mundo que é jornalista, que entende a importância social da profissão, valoriza a liberdade de expressão e defende a liberdade de expressão.

Eu sei que tem um monte de jornalista que não está nem aí para isso. Pensa: “Que bobagem. Por que eu vou me meter em uma briga dessas? A briga é política”. A briga é politica mesmo. No espaço da liberdade de expressão há política, sim.

O problema é o seguinte: jornalista nunca lê o seu próprio código de ética. E por falta de um, tem dois. Tem um que é da ABI [Associação Brasileira de Imprensa] e outro da Fenaj [Federação Nacional dos Jornalistas]. Por sorte, eles são muito parecidos.

Ambos falam que: “Todo jornalista é obrigado a combater o autoritarismo e a opressão. E muito mais quando o alvo do autoritarismo é a liberdade de informar as pessoas”. Isso está nos dois códigos de ética.

Eu sinceramente não me conformo com jornalista que acha que está em uma redação, oprimido, ou pelo prefeito, ou pelo presidente da República, ou pelo chefe, ou pelo patrão e acha que pode ficar assim. Não pode. Tem a obrigação de denunciar.

É o meu caso aqui (TV Democracia). Só que assim, você vai enfrentar um ambiente de muita briga. Por quê? Você vai brigar com seu chefe. Provavelmente, se ele tiver poder para isso, ele vai te derrubar. Então ele (jornalista) tem que estar em uma posição de baixa vulnerabilidade. De preferência muita empregabilidade no mercado, porque você fica livre do assédio do chefe ou do patrão.

Eu vou falar das pessoas que resistiram a isso durante muito tempo. O Boechat, por exemplo. Nunca abriu mão da liberdade de dizer o que queria a despeito de ter que se patrulhar muito no Jornal da Band, para não emitir opiniões que ele sabia que não eram bem-vindas, no caso dos valores que a casa representa.

Só que o Boechat tinha o espaço dele na Rádio Bandeirantes. Na rádio ele opinava e a rádio o transformou no que Boechat era. Não foi a televisão. O Boechat esteve na Globo durante muito tempo, mas só se tornou o Boechat que a gente conhecia na Band.

Claro que era um grande colunista lá n’O Globo como discípulo do Ibrahim Sued, depois foi o sucessor. Mas ele se tornou conhecido na Band porque preservava o espaço dele de opinião, na rádio, onde teve várias encrencas com o patrão, mas ali era como se fosse uma reserva de mercado: “O Boechat que fala o que quiser, mas na TV fica caladinho”.

Vocês não vão se lembrar de nenhuma atuação incisiva do Boechat no Jornal da Band, mas vão se lembrar de várias na rádio. Lembra quando ele mandou o [Silas] Malafaia “procurar uma rola?”. Foi na rádio. As brigas dele com [José] Sarney, o que rendeu processo, na rádio também. No Jornal da Band ficava quietinho, né?

E o Boechat era consciente deste espaço político, uma vez que ele foi um vitorioso. Ele conseguiu no fim da vida dele, depois de passar um inferno, por causa de colega mau-caráter, da revista Veja, ele conseguiu encontrar um espaço ideal.

Aí você pergunta para mim: Isso significa ser feliz na profissão?”. Não. Não significa ser feliz, significa ter problemas. Significa ser feliz com sua própria consciência, que é outra coisa…

CB – O seu canal no YouTube é o que pretende fazer, de agora em diante, ou você retornaria para a TV aberta?

FPOlha, eu vou te falar a verdade. Eu saí da Band, um ano e tanto, nunca me ofereceram emprego em lugar nenhum. Eu conheço redações e sei que eu não caibo mais em lugar nenhum. Não me sobrou alternativa.

Não é que eu falo “Nunca mais vou trabalhar no mercado de trabalho”. Se alguém quiser um profissional que tenha o meu perfil, e que está disposto a respeitar meu espaço pessoal, eu volto a trabalhar, sem problema nenhum. Só que eu acho que não existe isso, viu, Chris? (risos)

Acho que quando você se coloca com muitos direitos, essa coisa toda, você não vai encontrar espaço no mercado de trabalho. O bom patrão é aquele que contrata um funcionário adequado a ele, e eu não acho que sou adequado a nenhuma das televisões. Então, não tem a menor perspectiva de voltar ao mercado de trabalho, nada disso, sabe?

Muito obrigado, Fábio Pannunzio, por aceitar o convite da coluna Por Trás da Tela! Até a próxima, amigos leitores!

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