Não aguento mais futebol – na televisão

De baixa qualidade, programas esportivos na televisão não estimulam outros esportes que não o bretão

Publicado há 24 dias
Por Christiano Blota
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Eu comecei minha vida no jornalismo esportivo, depois migrei para outros segmentos. Então, eu me sinto à vontade em falar sobre a atual fase da imprensa de TV aberta e paga. As pessoas comentam a fraca programação dos canais de esporte no nosso País.

Pode até ser verdade, mas isso se deve muito à nossa cultura e, claro, falta de vontade das emissoras e confederações esportivas, que parecem não gostar do ofício – claro que tem gente boa lutando por mudanças, eu conheço algumas dessas pessoas.

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Nos Estados Unidos, esporte é: basquete, golfe, futebol americano, beisebol, tênis, hóquei, entre outros. No Brasil, esporte é: futebol, futebol, futebol e também futebol, com raras exceções.

Com esse raciocínio, você deve imaginar o que as TVs abertas e fechadas no Brasil produzem, né? Advinha? O mais engraçado é: por que um abençoado resolve abrir um canal de esporte no Brasil? Masoquismo, egocentrismo?

Estou escrevendo mais uma coluna para o Observatório da TV e pensando nos canais de esporte: BandSports; ESPN; Fox Sports; SporTV. Sem contar TV aberta: Globo, Band, Record, Gazeta, RedeTV!. O SBT nunca gostou de esportes. De vez em quando o Silvio Santos tenta e se arrepende. Talvez ele tenha razão.

Enfim, futebol no Brasil é caro. Direito de transmissão engloba bilhões em dinheiro, fora a competição por trás dos bastidores, digna de filme de máfia: O Poderoso Chefão, O Irlandês, Cassino, pode escolher. O que uma emissora sem o poder de transmitir futebol vai fazer? Incentivar o espectador a ver outros esportes? Não. Claro que não.

Eles vão criar programas estapafúrdios que comentam futebol para preencher 24 horas de programação. Então, você fala do jogador, do treinador, da torcida, da tática usada em um jogo, da técnica da equipe, ou da técnica individual. E o assunto completa a programação da TV? Não.

Com isso você começa a ver programas que parecem papo de bar ou “Mexericos da Candinha”, mas a Candinha sabia o que estava fazendo. Programas que falam de esporte e são iguais às conversas com amigos quando se encontram em qualquer lugar.

Você vai tomar uma cerveja com um conhecido e começa a falar do seu time, ou faz uma piada quando a equipe dele perde. Você também chora quando a Seleção é eliminada da Copa e fica bravo quando se convenceu que seu time era bom e… não era. Sinceramente, eu não preciso desses programas.

Eu prefiro convidar os camaradas para um churrasco e fazer o meu bate-papo esportivo, não preciso de audiência. Só algumas risadas e comentários sinceros. Só tomar cuidado com a quarentena. No momento meus papos são virtuais, mas a cerveja é real.

E olha que conheço gente que entende mais de futebol que muitos por aí, sem aquela arrogância acadêmica ou de quem jogou futebol, foi craque, mas não necessariamente é um bom comentarista. Ao contrário, em 10 oportunidades fala a mesma coisa.

O engraçado é que sempre tem um gênio na TV com uma ideia diferente. “Vamos fazer um programa com participação do ouvinte, como se fosse um papo informal, falando de futebol, contando piada, trazendo uma pessoa engraçada, convidando um músico ou comediante.”

O produtor também inventa uma presença feminina (para fingir que não é machista), outro que seja jornalista esportivo e entenda de tática, um que seja o mediador. Tem a conhecida sonoplastia de risada ou imitação de um personagem do esporte.

O cenário vai ser um bar, uma mesa, um amontoado de cadeiras com um monitor ao fundo e usamos um chroma key caseiro. E o resultado é o mesmo de sempre. Não dá para mudar a receita?

Conversa arrastada, ex-jogador que fala mais que a boca, o gênio das probabilidades (que sempre erra), jornalista que cobriu a Copa de mil novecentos e Pelé na fralda e acha que sabe mais do que todos.

A audiência não sobe. O que eles vão fazer? “Quebrar o pau”. Intencionalmente ou não as figuras acabam no lugar comum: “discussão digna de circo”. A famosa vergolha alheia.

Isso o Zé Italiano, Peirão de Castro, Barbosa Filho, Milton Peruzzi e Geraldo Blota faziam na década de 1970. Mas eram os precursores e o programa era quase novidade.

E o dono da emissora? Esse aí só quer ver números. Audiência para chamar comercial. E está provado que boa audiência não reflete a qualidade do programa. Mas o patrão só quer ver o produto vendido, não interessa como, e não percebe que perde receita a cada dia.

Enfim, teve uma época em que o Luciano do Valle e o Quico conseguiram difundir esportes antes impensáveis de serem televisionados, como a sinuca. E valorizaram outros, como vôlei, basquete, boxe, futebol feminino, esportes de praia e, claro, o nosso tão amado futebol (hoje série A).

Mais do que isso, eles enfatizaram a força da mulher, quebrando paradigmas. O resultado foi uma programação que falava de quase todos os esportes no Brasil. Acho que o futuro das televisões interessadas no tema deve ser esse, principalmente em TV paga.

Muitas emissoras vão fracassar com esse comodismo de falar somente em futebol. Não adianta argumentar que as confederações esportivas estão fracas e não ajudam a TV. Para isso existe bom senso, reunião e menos ganância.

Com a vinda da internet, streaming e outros meios de comunicação, a operação pente fino da audiência está valendo. As TVs estão sem sustentação e não conseguem se manter em pé. Algumas estão na UTI.

Acabou a época em que o dinheiro entrava mesmo sem planejamento interno. A concorrência nos meios de comunicação é muito maior que antes, graças a Deus.

O relógio está correndo… O último avião da comunicação vai partir para uma nova era. Faça suas malas, escute a chamada do voo e não se esqueça do número da cadeira. Tem gente que vai ficar para trás… O som dos lamentos e murmúrios vai se espalhar pelos cantos, mas o avião estará longe, cruzando os oceanos algorítmicos de um mundo virtual.

*As informações e opiniões expressas nesse texto são de total responsabilidade de seu autor e podem ou não refletir a opinião deste veículo.

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