Mauro Beting desabafa sobre as cobranças de parte da torcida: “Eu não sou pago para ser palmeirense”

Bossa nova embala o cotidiano do jornalista

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Olá, amigos da coluna Por Trás da Tela! Nesta semana, como prometido, a segunda e última parte da nossa conversa com o ‘jornalista futebolístico’ (dos bons) Mauro Beting. A primeira você pode conferir aqui. Ele fala sobre a participação do time do coração no Mundial de Clubes e também um pouco sobre sua vida ‘por trás da tela’, como sempre pedimos a nossos convidados. Vamos ao papo!

CHRISTIANO BLOTA – Mauro, eu estava confortável no meu sofá, de folga, para ver um Palmeiras X Santos, imperdível para quem gosta de esporte, e te vi. Com você, Téo José, Jorginho e grande elenco. Profissionalmente e pessoalmente, como foi para você participar dessa decisão histórica (da Taça Libertadores da América)?

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MAURO BETING – Foi uma emoção muito grande, meu time chegando à final mais ainda, fazendo o gol aos 53 minutos e 28 segundos. Eu confesso que chorei, mas tinha que me manter. Eu chorei por tudo, por pensar em meus filhos vendo o jogo em casa em São Paulo. Meu filho menor, que queria ter vindo ao Rio de Janeiro (Maracanã) de qualquer jeito, mesmo estando fora, só para estar na cidade, na final da Libertadores. Pelo meu pai, nestes oito anos que não está mais comigo.

Uma coisa interessante: a Jovem Pan tem câmeras na cabine para as transmissões. A cabine dos estádios e agora, na pandemia, durante os estúdios também. Eu sou muito criticado pelos palmeirenses porque não mexo um músculo quando o Palmeiras faz um gol, e uns até falam: “Onde já se viu, um palmeirense que não celebra?”. Acontece que eu não sou pago para ser palmeirense. Eu não sou pago para aparecer comemorando, xingando. Eu não estou aqui cobrando o Vampeta, meu colega de Jovem Pan, o Neto, colega de Band, que comemoram. Cada um faz o que bem entender. Eu não sou ‘bedel’ de sentimentos nem sommelier de torcida, como lamentavelmente muitos coleguinhas, alguns deles brilhantes, ficam cobrando, que o torcedor não pode comemorar em estadual, não pode comemorar empate no último minuto, com o time pior contra um rival maior. Hoje se cobra tudo, de uma maneira deplorável e nefasta.

Voltando, eu fiquei muito emocionado, como eu já tinha ficado emocionado no segundo jogo da semifinal, do Allianz Parque. A gente estava no estúdio do SBT, aquele massacre do River Plate, que foi só 2 a 0, e o Palmeiras se classificou. Eu posso falar, de 53 anos como palmeirense e 30 como jornalista esportivo eu nunca sofri tanto. Nosso narrador do SBT, Luiz Alano, perguntou: “Mauro, você tá vivo, você tá bem?”.

Então, eu sou um torcedor como todos os outros, só que com um microfone na mão. Mas, como eu disse, jamais vou distorcer os fatos. Clubista não é um cara como eu, que sai para cima do próprio time. Clubista é um colega nosso que distorce contra o time que ele não gosta. Lamentavelmente temos péssimos exemplos de grandes jornalistas, grandes pessoas, queridos amigos meus, que são terrivelmente clubistas, e muitos deles não assumem. Falam que só torceram para o time na infância, só que está na infância ainda com 60 anos de idade. Esse é o clubista. O cara que distorce o time para qual ele não torce. No meu caso, eu sempre fui palmeirense, sempre assumi, e nesse caso posso dormir tranquilo, outros nem tanto.

CB – Pois é. Quando te vi no SBT, eu pensei: “Esse é o amigo que está no lugar certo, na hora certa”. Eu vou te fazer uma pergunta, com a certeza de que você seria um excelente jornalista especializado em cinema. Na época de faculdade, Sonia Blota [jornalista, irmã deste colunista] te entrevistou e você mostrou conhecimento em filmes. Por isso, eu pergunto: se a decisão da Libertadores fosse o nome de um filme, qual seria?

MB – Excelente questão. Até aproveitando, o meu próximo documentário chama-se ‘1999 – A Conquista da América’. A história do Palmeiras na primeira Libertadores, disputada em 1961, até a conquista da América em 1999. É o nome do primeiro documentário, que é inclusive o documentário oficial do Palmeiras, meu quarto documentário, que eu dirijo e roteirizo. Um filme já está escrito, que é o documentário que eu fiz. Agora, o segundo você me pegou com mais uma grande pergunta. Ainda não tem um título de filme, mas provavelmente, até por aquilo que se notabilizou, deve ser: ‘53’28” Gol do Breno Lopes, o gol da glória’.

Eu acho que está bom assim, porque eu tenho problemas. Eu escrevo bem, mas tenho problema em titular textos de blogs, livros que eu faço e filmes que eu dirijo. Eu vou dizer uma coisa. São várias obras. São quatro documentários, três longas-metragens, uma série de 100 anos da Seleção Brasileira, 22 livros e outros 10 que eu estou escrevendo. Se você perguntar os livros, não é que eu vá esquecer, eu me lembro até o mês em que foram lançados. Mas o nome certinho eu não sei.

CB – E a participação do Palmeiras no Mundial, o que você achou dela?

MB – Como palmeirense foi péssima, muito ruim, vergonha e decepcionante, mas jamais ruim, jamais vexame enquanto participação no campeonato. Primeiro que, para disputar o Mundial você precisa ter ganho alguma coisa. O Palmeiras ganhou a Libertadores, e ganhou oito dias antes. Ganhou no sábado e no domingo estava no Catar jogando contra o mais difícil adversário já enfrentado por qualquer equipe campeã da Libertadores, desde que o modelo é esse, desde a unificação dos títulos mundiais em 2005.

Fácil não era e ficou mais difícil pelo desgaste anímico, pelo aspecto físico, pelas próprias limitações do Palmeiras, algumas escolhas infelizes do Abel, e pelos méritos do clube adversário. Tudo isso entrou no pacote. O Palmeiras foi eliminado, o quinto sul-americano eliminado desde 2010, quando o Mazembe (time do Congo) aprontou para o Inter, mas pela primeira vez um sul-americano nem em terceiro lugar ficou. Perdeu para um time bom, que é o campeão africano Al-Ahly, na sua sexta disputa, também isso pesa, e perdeu nos pênaltis.

Sair sem gols em quarto lugar é ruim, mas não é vexame, não é vergonha, porque para chegar no Mundial alguém foi passado. E o Palmeiras chegou ao Mundial com a segunda melhor campanha da história da Libertadores, desde a primeira em 1960, superada apenas pelo grande Cruzeiro, campeão da América em 1976, jogando também contra o River. Não é qualquer coisa o que fez o Palmeiras, foi muito mais do que se imaginava e se esperava, e com a felicidade de poder acompanhar transmitindo pelo SBT.

CB – Vamos à pergunta clássica da coluna “Por Trás da Tela”: quando Mauro não está na tela da TV, celular, computador, o que gosta de fazer?

MB – Eu gosto de ouvir música, até por essa coisa que eu tenho de déficit de atenção. Eu já há algum tempo escuto música durante a transmissão de futebol. Então, eu ouço música vendo o Campeonato Italiano, que eu faço pelo Estádio TNT Sports. Eu estou fazendo jogo no SBT, especialmente em estúdio, e estou ouvindo música também – em mais de 90% dos jogos. Isso me ajuda.

Eu adoro música, embora não toque nem campainha. Minha única frustração pessoal e profissional é não saber tocar nada. Ainda bem que o meu filho caçula canta bem e o mais velho tocava bem bateria quando ele queria. Adoro música, entendo de música. Acho que gosto mais de música do que de cinema. Gosto tanto de música quanto gosto e futebol. Eu tenho boa cultura, boa memória enciclopédica, se você me perguntar coisas de música eu sei deixar ordem das músicas, em que mês foram lançadas, em que dia, lembro do videoclipe inteiro.

Eu não tenho conhecimento musical de analisar tecnicamente solo de guitarra, mas posso dizer que o David Gilmour é um cara que me emociona até hoje. Na música tem o lado da emoção, assim como tem no futebol, e eu prezo pelo sentimento. A música não faz parte da minha vida somente na área do hobby, porque eu ouço no trabalho também. Gosto de ouvir música, fazer ginástica (quando eu consigo), adoro fazer playlist no Spotify. Gosto de MPB, bossa nova, blues, música italiana (napolitana). Outros gêneros musicais, que eu não considero música, melhor nem falar.

CB – Agora é a última pergunta mesmo. No momento que vive o Brasil, qual é a música que você ouve para relaxar?

MB – Olha… Para relaxar? Eu não gosto de relaxar, só minha mulher maravilhosa que medita e eu não gosto de meditar. Eu acho que é um momento de falta de respeito. Porque há muito tempo eu penso nisso. Não falta amor, falta respeito. É fácil amar minha família, o Palmeiras (apesar das quedas), fácil amar meu ofício. Mas é preciso ouvir o outro lado. Nós precisamos conversar mais, ouvir mais, não sair bloqueando os outros.

A música, trilha sonora, seria bossa nova. Eu vou mais para o lado brasileiro, que é diferente de ser patriota. Nós nunca produzimos coisas tão boas quanto a bossa nova. Não por acaso era a época do Brasil Bicampeão (1958 e 1962); fomos bicampeões no Basquete (1959 e 1963); tínhamos a Martha Rocha; a construção de Brasília. E o que melhor representa esse estilo da minha bossa nova é o álbum ‘Amoroso’, de João Gilberto. Então, a música escolhida é ‘Wave’.

Fantástico, Mauro Beting. Muito obrigado pela conversa enriquecedora. Eu te agradeço, e escrevo as últimas palavras da coluna ouvindo João Gilberto… Até a próxima, amigo leitor!

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