“Eu não queria voltar para o rádio, mas agora estou muito feliz com essa decisão”, confessa o locutor José Silvério

Após planos de aposentadoria, veterano dos microfones ingressa na Rádio Capital

Publicado em 14/7/2021
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Amigos leitores, a entrevista de hoje foi feita com o grande José Silvério, o ‘Pai do Gol’, ganhador de diversos prêmios e dono da voz conhecida por gerações com bordões como “E que golaço!”. Com mais de 58 anos de carreira, Silvério certamente fez muitos torcedores – inclusive eu – abaixarem o volume da TV para ouvir melhor a sua narração pelo rádio. 

Após uma pausa de 15 meses que sucederam sua saída da Rádio Bandeirantes, e a sugestão da família para se aposentar, Silvério retorna aos jogos de futebol com uma narração inconfundível pela Rádio Capital, aqui de São Paulo.

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Confesso que, enquanto conversava com ele, sentia como se estivesse sendo transportado de volta para meus 10, 11 anos, quando não largava o rádio por nada e o acompanhava na Jovem Pan. Diferentemente daquela época, na nossa conversa ele falou só para mim e agora fala com todos vocês através da minha coluna.

CHRISTIANO BLOTA – Como foi o trâmite da ida para a sua nova “casa”, a Rádio Capital?

JOSÉ SILVÉRIO No início da pandemia, eu rescindi o contrato com a Bandeirantes, porque já havia decidido que não ia trabalhar mais. Eu e a minha mulher decidimos que era hora de eu me aposentar, levar uma vida mais tranquila, mais sossegada. Mas o Olivério Junior me fez esse convite e, depois de alguns vai e volta, nós acertamos que eu voltaria a irradiar na Rádio Capital. E eu estou bem feliz com essa decisão. Eu já irradiei três jogos na Capital e o retorno tem sido muito positivo e até melhor do que eu imaginava.

CB – E com esse novo desafio, você se vê participando da Copa de 2022, que acontecerá no Catar, pela Rádio Capital?

JS – Olha, existem muitos passos até a compra de uma Copa do Mundo. Se a rádio quiser me enviar, eu ficarei feliz. Seria a minha 12ª Copa do Mundo e eu, com certeza, não tenho nada contra. Mas eu te confesso que, nessa idade – agora eu tenho 75 anos -, a gente já não sabe muito bem o que vai acontecer amanhã. Aos 75, a gente não tem mais aquela fobia e todos aqueles planos que tínhamos na juventude. Com o passar do tempo, a gente vai raciocinando de uma forma diferente… Quando você chegar lá, você vai se lembrar de mim! Se der certo e eu receber o convite, claro que vou; mas se não acontecer, eu fico aqui e tudo bem, não tem nenhum problema.

Nesse momento, confesso ao mestre José Silvério que, aos 48 anos, já não faço planos como antes… E ele rebate com bom humor:

JS – Ah, mas a distância é muito grande! Nessa fase da vida em que eu estou, tudo passa muito rápido. Veja, há poucos dias eu ainda estava discutindo com o Olivério se ia voltar ou não para a rádio e, desde então, eu já irradiei três jogos na Capital. No mundo de hoje, não há mais tempo para você ficar em casa pensando, você tem que ir e fazer. Se der certo, deu. Se não der, tchau. Depois de uma certa idade, você não conta mais com certas coisas, você vive um dia de cada vez e cada dia é uma vitória que você tem.

CB – Tem uma narração sua que eu não me esqueço. Foi no ano de 1981, eu ainda era um menino, não largava o rádio de jeito nenhum e você narrou uma partida em que o São Paulo venceu o Palmeiras por 6 a 2. Quando o jogo terminou, eu fiquei pensando: “Foram 8 gols; como é que ele tem tanto fôlego para narrar e gritar todos eles?”. Anos depois, quando eu trabalhei no SporTV, saindo de um estádio com o saudoso Deva Pascovicci, nós te encontramos. Nesse dia, eu te falei desse trabalho – que, para mim, foi inesquecível – e você me disse que cometeu um erro em um dos gols. Desde então quero te perguntar: você se cobra muito como narrador?

JS – Muito! Eu sou, por excesso, um perfeccionista. É claro que ninguém consegue atingir a perfeição, mas eu me considero o meu maior crítico. Vou te falar uma coisa que você pode achar muito estranho: eu sou muito badalado, mas não vejo o motivo disso. Narrar, pelo menos para mim, é algo muito natural, que não envolve qualquer esforço. É sempre muito difícil falarmos de nós mesmos, mas me arrisco a dizer que eu nasci para isso. Eu já me superei em vários casos de forma espetacular, mas é porque me entreguei tanto a essa profissão, a esse ato, que essa coisa de narrar futebol deixou de ser uma profissão para virar um prazer. As pessoas já me perguntaram diversas vezes se eu canso, mas é tão natural que não faço muita força para narrar. Às vezes, eu saio do jogo meio atrapalhado, mas alguns minutos depois, tudo volta a ficar tranquilo, é só uma questão de dar uma “limpada no cérebro”. Se eu faço um jogo hoje à noite, por exemplo, quando eu chegar em casa, já acabou tudo. O jogo já não existe mais na minha cabeça. Às vezes, na volta para casa, eu fico pensando naquilo que eu fiz, se cometi algum erro. Tem erros que passam e eu penso “Ah, isso aí não deu em nada”, tem outros que eu me xingo. Então é assim, sou o meu maior crítico e me cobro muito facilmente.

CB – Em outro momento, nós nos encontramos também em uma festa da Bandeirantes. Lá, nós começamos a conversar e você me contou que estava reconstruindo a sua vida. Posso estar errado, mas eu sentia que você estava um pouco chateado, mas que estava se reerguendo…

JS – Foi quando fiquei viúvo. Eu era casado há muitos anos com a mesma mulher. Nós namoramos por anos e, claro, eu sempre fui muito ligado a ela. Mas depois de algum tempo passou. Hoje eu tenho uma vida completamente diferente. A Rose, que é minha mulher atual, foi um achado de Deus na minha vida, e hoje nós estamos muito felizes juntos.

CB – Que bom que sua vida está legal agora. Você tem netos, né, Silvério?! Filhos, netos…

JS – Acabou de chegar uma neta aqui – que, na verdade, é minha neta por afinidade, é neta da minha mulher. Então hoje ficou uma festa aqui em casa. Eu tenho seis netos de sangue. Desses, só duas são menores. O resto já é tudo moço – todos grandes, formados e trabalhando. 

CB – E como você começou a narrar jogos de futebol? Alguém falou ou você sentiu que tinha jeito para isso?

JS – Eu comecei no susto. Eu morava em Lavras, no interior de Minas Gerais, e sempre gostei muito de jogar futebol de botão. Na adolescência, lá pelos 15, 16, eu jogava com os meus amigos e tinham algumas pessoas que pediam para eu irradiar o jogo. Eles falavam, inclusive, que só jogariam comigo se eu irradiasse a partida, porque eu era muito bom e geralmente ganhava. Aí, em julho de 1963 – quando eu tinha 17 anos -, ia acontecer um jogo na cidade entre o Bragantino e o Olímpica. Na época, a Rádio Cultura tinha mais ou menos uns três narradores, mas nenhum deles estava em Lavras. Como eu já tinha o costume de narrar as partidas de futebol de botão, me chamaram para fazer um treino. Treinei na sexta e irradiei no domingo – o que acabou sendo o primeiro jogo que transmiti na vida. Dia 20 de julho de 1963, sem nenhum preparo, sem nada: fui lá e mandei ver! E deu certo, então fiquei e fiz mais alguns jogos. Um tempo depois, já no começo de 1964, um locutor da Rádio Itatiaia me ouviu narrar e ligou para perguntar se eu queria fazer um teste, mas fez uma condição: “só se você for novo”. Eu respondi que tinha 17 anos, nem tinha completado 18 ainda, e ele respondeu: “tudo bem, não precisa ser tão novo”. Depois do teste, eu fui para Belo Horizonte e, a partir daí, nunca mais parei. Na verdade, parei recentemente, quando fiquei um ano sem irradiar.

CB – Parou mais ou menos; você deu uma respirada e agora está voltando…

JSEu não queria voltar, não. Minha mulher também não queria que eu voltasse. Estávamos nos dividindo entre ficar em São Paulo e em Lavras. Estava com a vida bem definida de “vagabundo” (risos). Eu parei naquele momento, porque, como eu trabalhei a vida inteira, minha família achava que não precisávamos de mais nada. Mas o Olivério insistiu que só seguiria com a negociação na Rádio Capital se tivesse uma pessoa de prestígio envolvida. E agora estou muito feliz de ter voltado. Só repercussão positiva. A Capital já cresceu em audiência geral por causa do futebol e isso me deixa muito feliz também.

CB – Em algum momento passou pela sua cabeça que você faria esse sucesso, que ganharia tantos prêmios? 

JS – Não, eu sou muito tranquilo com esse tipo de coisa. Eu só fervo por dentro. Aparentemente, tenho muita cautela com tudo, sou até um cara meio medroso. Meio indeciso em um monte de coisas. É muito engraçado e minha mulher fica até brava comigo, porque eu não acredito no que as pessoas falam. Para mim, narrar é a coisa mais natural do mundo, esse sou eu. Eu sou desse jeito. Eu me entrego às coisas que eu faço, faço tudo com capricho, com dedicação e acho que é por isso que dá certo. Não vejo nada extraordinário, nada diferente. Eu não vejo metade do que as pessoas veem em mim.

CB – Houve um momento na sua carreira em que você pensou em trabalhar na TV?

JS – Não. Houve um desencontro de vida entre eu e a televisão. Eu fiz dois trabalhos e eles me marcaram muito. Fiz os jogos de futebol durante as Olimpíadas de Atlanta, em Miami, pela TV Manchete. Foi um sucesso! Desculpe falar assim, mas eu posso falar (risos). A Manchete fez tudo o que podia para me contratar: o dinheiro que me ofereceram era infinitamente superior ao salário que eu ganhava na Jovem Pan; mas eu estava tão bem, eu gostava tanto daquilo que eu fazia e do salário que eu ganhava, que era absolutamente suficiente para minha vida. Não sei por que, não senti aquela “coisa” para ir para a Manchete. E dei sorte, porque pouco tempo depois a Manchete começou a implodir. 

E Silvério continua a relembrar sua trajetória pontual na televisão…

JS Eu fiz, se não me engano em 1985, a estreia da ESPN no Brasil. Eu narrei os seis jogos de uma das Copas do Mundo. A Copa do Mundo de 1970, tenho quase certeza, quando o Brasil foi campeão. Para seu lançamento, a emissora escolheu essa Copa, comprou os filmes na FIFA e me convidou para ser o narrador. Fui o cara que abriu a ESPN Brasil. Assim que acabou, o Zé Trajano queria me contratar, mas nem a Jovem Pan queria que eu saísse de lá nem a ESPN podia me pagar o suficiente, então eu preferi ficar na rádio. Essas foram as duas coisas que fiz na TV e dizem que fui muito bem. Não no mesmo estilo de rádio, mas na mesma coisa de saber narrar. Eu não levei a sério, não. Apareceram alguns diretores de televisão falando que queriam me contratar, mas eu sempre preferi deixar isso para lá. Eu não sou um cara muito vaidoso. A minha vaidade é íntima. Eu me sinto bem quando eu narro bem. Mas não tenho aquela coisa de querer ser o maior, querer ser famoso, por isso não fui para a televisão. Talvez tenha sido isso ou alguns me bloqueavam, porque tinham medo de mim. Em televisão tem muita vaidade.

Concordo com Silvério – acho, inclusive, que para alguns é mais vaidade que qualquer outra coisa.

JS – Quando eu era mais jovem, tinha mais, não digo entusiasmo, porque entusiasmo eu tenho até hoje, mas é que tinha mais sonhos, vamos dizer assim. Várias vezes falavam comigo sobre televisão, mas eu ganhava no rádio mais do que os caras ganhavam na TV. Eu só não sabia que depois o rádio ia diminuir o salário e a TV ia aumentar (risos). Mas acho que dinheiro, dentro de um certo limite, tanto faz. E foi por isso também que nunca cogitei ir para a televisão.

CB – Silvério, minha coluna se chama “Por Trás da Tela”. Apesar de você ser principalmente um narrador de rádio, a gente te acompanha nas redes sociais, nas câmeras dos estúdios da Rádio Capital – então ainda está valendo o “por trás da tela”. Tenho uma pergunta padrão da coluna: o que você gosta de fazer quando você não está trabalhando?

JS Eu sou um cara muito caseiro. Gosto de ler, leio muito. Tenho uma vida muito pacata e sossegada. Não sou muito de riscos, não; sou muito tranquilo. Enquanto te esperava para essa entrevista, jogava palavras cruzadas. Eu gosto muito da minha casa, gosto mesmo. 

CB – Silvério, muitíssimo obrigado! Você não sabe a alegria de estar falando com você.

JS –Então pode sorrir porque eu também gostei da entrevista.

Com certeza eu sorri – e espero que vocês também.

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