Ícone da Rádio Bandeirantes, Claudio Zaidan relembra os 47 anos de carreira

Comunicador relembra práticas de seu início no jornalismo, cobradas também dos que chegam ao mercado agora

Publicado em 31/8/2021
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Amigos da Coluna Por Trás da Tela, é com imenso prazer que converso hoje com Claudio Zaidan, um dos melhores comentaristas do rádio brasileiro. Natural de Uberaba, Minas Gerais, Zaidan começou sua carreira com apenas 14 anos, seguindo os passos do pai. E lá se vão 47 anos de rádio, sendo 25 deles apenas na Rádio Bandeirantes.

Nesse tempo, Zaidan transformou a forma de fazer jornalismo e futebol no rádio. Tenho certeza que ele foi a companhia de muitos na madrugada, levando informação, conhecimento e prestação de serviço. Da minha parte, muito orgulho de ter compartilhado o mesmo microfone que ele no Bandeirantes a Caminho do Sol, quando tive a missão de substituí-lo no ar.

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Agora, como pesquisador e apaixonado pelas histórias do rádio e da televisão, tenho que confessar que essa entrevista foi uma aula: de teoria e prática. Generoso e com tanto a ensinar, Zaidan compartilha um pouco da sua trajetória sem deixar para trás nomes que fizeram parte de cada momento importante – em sua vida e na jornada da comunicação no Brasil. Defensor da honestidade e da independência na profissão, indigna-se com um problema que ele vê como grave: jornalistas que usam seus espaços para defender pessoas ou ideias.

CHRISTIANO BLOTA – Zaidan, quando você entrou no rádio, quando começou no jornalismo, foi por uma questão de vocação, ou no início teve um pouco de vaidade?

CLAUDIO ZAIDANNão, até porque eram tempos muito diferentes. Eu tinha 14 anos quando comecei, então isso faz muito tempo (risos). Entrei para ganhar dinheiro, para ter um salário. Pelas circunstâncias eu acabei começando em rádio, mas em nenhum momento pensei que era uma profissão diferente, que era isso ou aquilo. Não tinha muita ideia, simplesmente foi uma oportunidade.

Meu pai trabalhava em rádio, mas não era a principal profissão dele – ele era funcionário dos Correios e também trabalhava em rádio. Ele chegou a ter sociedade pró-labore: era sócio com o trabalho dele, porque não tinha capital. Então eu, desde muito novo, ouvia rádio, ouvia jogo em rádio – porque eu já gostava de futebol e na época futebol era rádio.

CB– Aquela época que você fala seria qual década?

CZDécada de 1960, por exemplo. Eu cresci ouvindo rádio e futebol. A televisão até tinha programas de esporte, mas um aqui, outro ali. Rádio não: o noticiário era no rádio, a transmissão de jogo era no rádio. O futebol era no rádio e eu gostava de ouvir o noticiário também. Então, quando eu comecei, eram duas coisas muito familiares para mim: o futebol e o rádio. Muito familiares, desde sempre.

Só que eu não fazia só futebol, fazia reportagens e, você sabe como é rádio no interior, fazia também jornal falado. E o jornal que você apresentava ninguém redigia. Então era um aprendizado múltiplo: tinha que redigir, escutar as notícias – porque não tinha internet; na emissora não tinha fax nem telex. Eu tinha que pegar aqueles rádios Transglobe, com oito faixas, sintonizar em onda curta, o som ia embora e voltava para ouvir rádios de São Paulo, do Rio e pegar o noticiário. Tinha que construir o noticiário que ia ler no ar. Foi um aprendizado grande. Mas não tinha nenhuma intenção de associar a profissão a alguma coisa especial, nada disso. Era um emprego como outro qualquer. Eu não sabia se ia ficar naquilo um ano ou 46 anos.

Nesse momento, Zaidan ri ao vislumbrar sua vasta carreira. Sou obrigado a perguntar para ele: você começou a trabalhar na rádio em que o seu pai tinha sociedade?

CZNão, nesse momento ele não tinha mais sociedade. Antes, ele havia tido uma sociedade pró-labore e era um trabalho de segundo plano, para acrescentar uma renda mensal.

CB – Certo. E qual o nome da rádio onde você começou?

CZA primeira foi a Sete Colinas, em Uberaba, Minas Gerais.

CB – Que legal! E foi ali onde você aprendeu tudo…

CZÉ, você tinha esse aprendizado múltiplo por necessidade. Sempre fazíamos várias coisas. Interessante que hoje, nas grandes emissoras brasileiras, eles transformaram isso em necessidade também, porque a meninada chega e tem que saber editar, gravar, redigir, aí vai para o ar. E hoje até começam a exigir que o sujeito opere mesa. É essa obsessão por redução de custos que as empresas têm hoje.

CBExatamente! Zaidan, você se mirava em alguém no rádio quando começou?

CZNão, porque eu ouvia muitas rádios, até por necessidade de colher notícias. Mas antes disso eu ouvia Bandeirantes, ouvia as transmissões de boxe – inclusive com o Pedro Luiz Paoliello [um dos maiores narradores da crônica esportiva brasileira] e o Eder Jofre [o maior nome da história do boxe nacional]. Quando conseguia pegar, geralmente à noite dava, gostava de ouvir Eldorado. JB do Rio também. Eram rádios que tinham personalidade, ou seja, cada emissora tinha uma marca, uma plástica, não havia padronização. A Eldorado tinha uma plástica muito especial: sempre ficava um espaço entre música e música, não havia mixagem. As propagandas geralmente eram sem fundo musical. Dificilmente usava um fundo musical, sendo um jornal falado com tema meio marcial, que era comum na época.

A Rádio Tupi de São Paulo tinha um jornal muito bom, que o Franco Neto [memorável locutor e radialista; dono do bordão “Repita” na Jovem Pan] fazia. A JB tinha Eliakim Araújo [grande jornalista do rádio e da TV]. No futebol, além da Bandeirantes e da Tupi de São Paulo, gostava da Globo do Rio, que ainda era Globo Nacional: Jorge Curi, Waldir Amaral [ambos foram notáveis radialistas e locutores de esporte], João Saldanha [jogador e treinador de futebol, jornalista, comentarista esportivo e militante político] comentando…

Enfim, tinha várias figuras que eram emblemáticas. Mas não eram uma referência para isso ou aquilo. Eram referências múltiplas, de diversas áreas do rádio e do jornalismo radiofônico. E como meu pai assinava o jornal, eu gostava de ler, me interessava pelo noticiário desde cedo. Tudo isso construiu uma tendência. Não acho que seja vocação nem acho que era uma profissão diferente, mas as circunstâncias levaram a isso.

CB – E você tremeu a primeira vez que falou no microfone, a primeira vez que entrou ao vivo?

CZFoi natural. Até pela idade, tinha uma certa irresponsabilidade típica, quando você acha que é tudo normal. E também por ter esse contato desde a infância, inclusive indo para a rádio onde meu pai trabalhava. Era uma extensão, sabe? Não era uma coisa estranha. Eu não me lembro bem qual foi a primeira entrevista que fiz. Lembro de uma entrevista que fiz com o Raul Plassmann, quando ele era goleiro do Cruzeiro. Não o Raul que foi campeão da Libertadores, mas antes disso, o Raul que jogava ainda com o Tostão, o Natal, o Evaldo, o Pedro Paulo.

Agora, a primeira entrevista como repórter, que eu me lembre, foi com um treinador do América mineiro. Ele era conhecido como Cento e Nove, esse era o apelido dele. Isso eu me lembro porque foi a primeira entrevista já ganhando para fazer. Então acho que não, pela irresponsabilidade e o descompromisso típicos da idade. A gente não esquenta muito a cabeça quando tem 14 anos.

Comento que é ótimo não esquentar muito a cabeça com as coisas e Zaidan ri.

CB – É muito bom isso para o rádio, para ter aquela descontração que a gente precisa. Zaidan, depois você vem para as chamadas “grandes” aqui de São Paulo. Você passou pela Jovem Pan, Trianon, Bandeirantes… Como foi esse processo?

CZEm 1979, eu comecei a trabalhar numa rádio em Santos – antes disso, eu fiz um jogo na Rádio Clube, que foi até um jogo do Santos. Mas eu tinha visitado a Cultura e fizeram uma proposta com carteira assinada, era um negócio mais interessante. Fui trabalhar na Cultura fazendo jornal e programa. Depois sai de Santos, voltei para Santos, fiz mais uma vez a Cultura em 1982, voltei para Minas, trabalhei de novo nas rádios daqui, fazendo futebol, fazendo jornal.

Em 1986, ia abrir uma rádio em Santos, a 95 FM, e fui contratado antes de a rádio abrir. Já me conheciam da Cultura. O Sinézio Bernardo, que tinha sido locutor da Cultura e da Globo, virou sócio pró-labore da 95 FM e me convidou – eu, Julinho Mazzei, Marcelo Zamarian, Pedro Emílio [locutores e radialistas, donos de timbres inconfundíveis]. Fiquei um ano lá. Inclusive, meu filho mais velho, o Francisco, nasceu em Santos nessa época.

Em janeiro de 1988, eu entrei na Jovem Pan, onde fiquei por uns 4 anos. Em 1992, o Fernando Vieira de Mello – que havia dirigido a Jovem Pan por 40 anos, o cara que construiu o jornalismo da emissora – saiu da Pan. Ele, o [Antônio Camargo] Del Fiol, e o [João Carlos] Di Genio fundaram a Rádio Trianon. O Fernando tinha trabalhado comigo na Pan e me convidou para trabalhar na Trianon. Eu fui antes mesmo de a rádio abrir – eu, Orlando Duarte [jornalista e cronista esportivo], [Fausto] Canova, o [Helvio] Borelli [locutores e radialistas], o Sabá [Sebastião Oliveira da Paz, conhecido como Sabá, grande músico e contrabaixista]. A rádio tinha uma programação muito boa. O Ney Gonçalves Dias [jornalista e radialista] era comentarista do jornal da manhã e o Fernando me deu um horário à noite.

Dois anos depois, a Bandeirantes me convidou para ir para lá sem a necessidade de sair da Trianon. Eu entrei na Bandeirantes em 1994 e lá se vão 27 anos. Mas eu cheguei a sair por dois exatos anos: de março de 1999 a março de 2001. Nesse intervalo, voltei a trabalhar na Trianon, da qual eu tinha saído em 1996.

O [Alberto] Luchetti [Neto] tinha sido diretor da Bandeirantes e se tornou diretor de Núcleo na Globo. Ele montou uma equipe que se reunia semanalmente, às vezes duas vezes por semana. Alugaram uma casa na Água Branca e o objetivo do grupo era se reunir e ter ideias. Aquilo era filtrado e ele levava para a Globo. Trabalhei ali naquele período, mas sem vínculo, eles pagavam por reunião.

Em março de 2001, eu estava na Trianon, e o [José Carlos] Carboni [jornalista], que trabalhou comigo na Jovem Pan, me ligou e me convidou para voltar para a Bandeirantes. Eu aceitei.

CB – E para ficar, né?!

CZExatamente. Ainda estou lá. Entrei há 27 anos, mas com esses 2 anos que fiquei fora, eu tenho 25 anos de microfone na Bandeirantes. Nesses 47 anos de rádio, 25 são microfone da Bandeirantes.

CB – Zaidan, a gente vê tantas pessoas tentando se perpetuar na profissão. Você teve que se esforçar? Isso sempre foi uma preocupação para você, ou as coisas foram acontecendo naturalmente?

CZForam acontecendo naturalmente, até porque, durante grande parte desse longo tempo, eu sempre via como uma profissão que estava ali; se não fosse essa, seria outra. Inclusive, uma época eu saí para viver em roça, como funcionário de fazenda, lavoura e essas coisas, porque eu gosto muito de gado, então nunca foi uma obsessão. Há uma preocupação, claro. Depois que a pessoa casa, tem filhos, aí vira uma preocupação estar empregado e ter um salário.

Eu não vendo e nunca vendi propaganda, eu sempre vivi do meu salário. A sobrevivência veio do meu salário. Então a preocupação é essa, como seria em qualquer outra profissão. Não importa se você trabalha em uma obra, se você trabalha em um navio, se você trabalha em rádio, jornal, se você é dentista… Você tem a preocupação de pagar as contas. Preocupação em estabelecer um nome, uma história? Não. Isso para mim é irrelevante. As coisas acontecem naturalmente.

Nosso papo continua na próxima postagem da Coluna! Zaidan fala sobre sua experiência no programa Bandeirantes a Caminho do Sol, um grande sucesso nas madrugadas, que o consagrou como um comunicador culto e versátil, enfim, um jornalista completo. Não percam!

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