Os negros e a resistência à predominância branca no SBT

Descredibilizada de representatividade, emissora esconde os poucos profissionais que tem

Publicado em 08/09/2021 14:23
Publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio

Quando o ator, bailarino e empresário Jorge Lafond (Vera Verão) morreu, lá no ano de 2003, o SBT perdia o mais representativo artista negro de toda sua existência, o único com contrato fixo na emissora. À época, o departamento de jornalismo estava defasado e a dramaturgia ressurgia de maneira bem tímida.

No casting, então, sobrou – no sentido mais legítimo da palavra -, Edvan Rodrigues de Souza, o popular Buiú do humorístico A Praça É Nossa, que não demorou muito até ser dispensado sob a justificativa de uma reformulação no programa. Buiú foi vender pastel, depois virou servente de pedreiro e até carnê do Baú ele vendeu antes de retornar à emissora alguns anos depois.

Publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio

Lafond sempre foi o ídolo de Buiú, e a parceria de sucesso que se perdurou por sete anos aconteceu de uma maneira curiosa – ele foi integrado ao programa de Carlos Alberto de Nóbrega por uma insistência de Arnaud Rodrigues (1942-2010), um dos mais brilhantes comediantes de sua geração.

Jorge Lafond foi intérprete de Vera Verão (Reprodução: SBT)

Sucesso de audiência da “Praça” entre os anos de 80 e 90, Arnaud também era um prestigiado compositor, tinha muita moral com Carlos Aberto. Ele era considerado por Chico Anysio o melhor redator que ele havia conhecido.

Por trás deste artista de televisão, poucos sabem, mas existia também um dos expoentes do rap nacional, respeitado por setores da cena black. Ao fim dessa trinca, os anos posteriores na programação do SBT foram marcados pela ultra dominação branca.

Edvan Rodrigues de Souza (Buiú), Arnaud Rodrigues e Carlos Alberto de Nóbrega (Reprodução: SBT)

Tanto nos cargos executivos ou em qualquer outro posto de maior expressividade, que seja, a coluna pesquisou e não chegou a nenhum nome de diretor (a) de pele negra. E isso, por assim dizer, é o que explicará a somatória cronológica dos equívocos mais absurdos e intragáveis cometidos pela emissora ao longo dos anos.

A ideia é mostrar o quanto a emissora contribui para a marginalização do negro em sua programação e o quanto o pensamento arcaico da direção só reforça a invisibilização de profissionais com grande potencial, acentuando assim, o declínio moral da própria rede diante da evolução das outras.

Dramaturgia controversa

2003 foi o ano da novela Canavial de Paixões, que apresentou apenas um único ator negro em seu elenco formado por mais de 40. Era ele, Déo Garcez, em um papel secundário e com poucas cenas.

Na retomada do departamento, lá em 2001 com Pícara Sonhadora, até a mais recente das produções, As Aventuras de Poliana, o SBT nunca deu protagonismo nem antagonismo a um negro.

E não seria honesto falar sobre o papel Dhu Moraes como a mamãe Dolores de O Direito de Nascer. A novela gravada em 1997, além de ter sido exibida somente em 2001, demandava de uma notória atriz para viver uma criada. Roberto Talma, o renomado diretor da trama, recorreu a uma artista negra, afinal, qual o sentido uma branca no papel de empregada, não é mesmo?

Chica Lopes, Déo Garcez e Dhu Moraes (Reprodução/Montagem Observatório da TV)

Em 2004, ao lançar a Casa dos Artistas: Protagonista de Novelas, Silvio Santos se encantou pela participante quilombola Cyda Baú, a única mulher negra entre os confinados. Sétima eliminada da competição, a profissional ganhou o carinho do público e foi convidada pelo próprio comunicador a integrar o elenco da novela Esmeralda.

Cyda, como era de se esperar, ficou com o papel de Jacinta, a empregada da fazenda dos Álvares Real. Em entrevista ao El País Brasil, a atriz relatou a sensação de sempre ser destinada a papeis do gênero.

Cyda Baú (Reprodução: Instagram)

Esses lugares, esses tamanhos de lugares que nos é oferecido, eu comecei a questionar isso. Por que é que nós estamos só nesses lugares ou conseguimos chegar só nesses lugares? Eu fazia sempre as empregadas. Nas peças e nos estudos. Quando ia ver, o meu papel era a da personagem que vem, põe o bolo na mesa e sai. Vem, limpa o que caiu e sujou, e sai. É muito forte isso”, afirmou.

Tudo isso ocorreu ao tempo em que a Globo dava a Taís Araújo o papel principal em Da Cor do Pecado, a primeira protagonista negra da emissora. E como não bastasse, o remonte da dramaturgia da Record TV era marcado pelo remake de Escrava Isaura, com um elenco 90% formado por atores negros. E o SBT?

Os anos passaram e a dramaturgia da emissora se fortaleceu com a imagem das atrizes Bianca Rinaldi, Patrícia de Sabrit, Bárbara Paz, Bianca Castanho, Carla Cabral, Graziella Schmitt, Patrícia Barros e Larissa Manoela. No campo masculino, Dado Dolabella, Rodrigo Veronese, Cláudio Lins, Gustavo Haddad e João Guilherme formaram o time de mocinhos e heróis desses melodramas.

Chica Lopes, falecida em 2016 aos 90 anos, foi a artista negra com maior volume de trabalho em novelas da casa; um total de sete produções ou mais. No entanto, seu único papel fora da cozinha e dos maus-tratos dos patrões foi como a irmã Margarida, em Jamais Te Esquecerei (2003).

Racismo em Poliana!

Em 2018, um episódio lamentável não passou desapercebido pelo público de “Poliana”, quando no capítulo 61, na tentativa de abordar o racismo numa escola, o resultado foi controverso. Na sequência levada ao ar, a menina Kessya (Duda Pimenta) falou para a coordenadora Helô (Elina de Souza) que havia sido acusada injustamente de roubar uma estátua só porque é negra.

A coordenadora respondeu que o maior problema nesse caso não eram os racistas, mas sim a cabeça da garota. “Para que os outros parem de ver a nós negros como diferente diferentes, nós precisamos parar de nos ver como diferentes”, disse ela.

A resposta do SBT com a repercussão do caso só escancarou o quanto sua direção carece urgentemente de uma reavaliação sobre o tema. Qualquer roteirista com o mínimo de capacidade intelectual e contextual jamais deixaria passar tal diálogo.

Em nota oficial, o SBT afirmou que a atração “tem o papel de debater questões sociais como o enfrentamento ao racismo (…) A novela é uma obra de ficção para entreter e não polemizar”. Ok?

Ainda com o tema “Poliana”, foi criado o núcleo da favela Bem-Te-Vi, ao qual a família Soares pertencia. Para tal, foram contratados os atores Maria Gal, Vitor Britto e Nando Cunha. Pra quem não assistiu, não é preciso quebrar a cabeça para imaginar como a trama de cada um desses personagens foi desenvolvida; pobreza, humilhações, malandragem, desgraças e muita frases de efeito predominaram.

Maria Gal, Vitor Britto, Duda Pimenta e Nando Cunha em As Aventuras de Poliana (Divulgação: SBT)

Meses depois, na tentativa de salvar a imagem da novela e reparar os erros, Iris Abravanel armou uma estratégia e escreveu cenas em que personalidades negras da história foram homenageados e reforçou sua abordagem sobre racismo.

Negros em papeis secundários

A puxar pela memória, foram bem poucos os atores negros que conquistaram personagens sem estereótipos e com profissão que não fosse a de um serviçal. Adriana Lessa interpretou uma mulher da alta sociedade em Corações Feridos (2012). Pathy Dejesus foi Alabá em Uma Rosa com Amor (2010), uma jovem atriz descendente de nigerianos.

Frazão, personagem de Toni Garrido em Uma Rosa com Amor, era um advogado de uma empresa do ramo imobiliário. Depois disso, nenhum outro ator conseguiu alcançar tal feito. Ildi Silva em Os Ricos Também Choram era uma princesa, filha de um rei africano, mas que precisa trabalhar como empregada doméstica para sobreviver.

Gésio Amadeu e João Acaiabe ficaram eternizados como Chefe Chico nas versões de Chiquititas. Já Adriana Alves, esposa de Olivier Anquier, e os atores Marcelo Batista, Edson Montenegro (falecido) e Norton Nascimento (falecido) interpretaram pobres sofredores.

Do outro lado, Globo e Record TV conquistavam prêmios internacionais com Lado a Lado (2012) e Escrava Mãe (2016). A versão brasileira de Rebelde também apostou em protagonista masculino: Micael Borges. Bela, a Feia brindou Ildi Silva com uma ótima personagem. Maju Coutinho já era promessa para o futuro na Globo e Aline Midlej era chamada para assumir o Jornal das Dez na GloboNews.

Zileide Silva, Thiago Oliveira, Érico Brás, Lázaro Ramos, Manoel Soares, além dos veteranos Glória Maria e Heraldo Pereira, com devido merecimento, estão espalhados entre Jornalismo, Esporte e Entretenimento.

Já a linha de shows do SBT foi calcada com a excelência de Gugu Liberato, Hebe, Celso Portiolli, Adriane Galisteu e outros tantos nomes. Mas como explicar o quadro atual de apresentadores ser formado unicamente por brancos?

Gabriel Cartolano (merecidamente) chegou a assumir três programas de uma vez só, o Vem pra Cá, Fofocalizando e Notícias Impressionantes, enquanto Monalysa Alcântara era dispensada de maneira inexplicável do quadro de colaboradores do matinal de Patrícia Abravanel (?).

O jornalismo da emissora renasceu das cinzas na década passada com Ana Paula Padrão, Carlos Nascimento, César Filho, Analice Nicolau, Cynthia Benini, Rodolpho Gamberini, Joseval Peixoto, Rachel Sheherazade e Joyce Ribeiro, sendo esta última citada, um dos casos mais absurdos já vistos por ali.

Joyce Ribeiro (Divulgação: TV Cultura)

Joyce Ribeiro, a única profissional negra no jornalismo do SBT, foi demitida após 12 anos de trabalho nos principais telejornais da casa. A jornalista se indispôs com Dudu Camargo, ele com 18 anos à época e sem Ensino Médio, colocado no ar pelo próprio Silvio Santos. Depois, em 2018, Joyce veio a se tornar a primeira mulher negra a assumir um telejornal diário sozinha, no Jornal da Cultura.

Uma pesquisa organizada pela Vaidapé neste mesmo período, apresentou dados sobre os apresentadores e apresentadoras de televisão no Brasil para quantificar o racismo nas emissoras de TV.

Foram 204 programas somados entre o segundo semestre de 2016 e o primeiro de 2017, das sete emissoras de TV aberta: Globo, SBT, Record TV, Band, RedeTV, TV Cultura e TV Gazeta. O resultado foi um levantamento de 272 apresentadores que compunham as grades de programação.

A pesquisa dá um bom panorama da televisão brasileira. As primeiras respostas obtidas não surpreenderam. Apenas 3,7% dos apresentadores eram negros. Em valores absolutos, de todos os analisados, foram apenas 10 apresentadores negros contra 261 brancos.

De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), de 2014, organizada pelo IBGE, 53% da população brasileira é composta por pretos ou pardos, grupos agregados na definição de negros.

A filósofa e socialista estadunidense Angela Davis, em uma de suas vindas ao Brasil, disse que assiste a nossa TV para saber como o paí s é representado nela. “Sempre assisto TV no Brasil para ver como o país se representa e a TV brasileira nunca permitiu que se pensasse que a população é majoritariamente negra. Às vezes não é preciso ser especialista para saber que alguma coisa está errada. Se a cara pública deste país majoritariamente negra é branca.”

Muita gente pode achar desnecessária ou até uma bobagem essa representação, mas sim, o SBT como a segunda maior emissora de TV aberta do Brasil, bem como as outras também, deveria entender como obrigação pelo simples fato de ser uma concessão pública, que não basta apenas pautar o tema, mas sim fazer valer o seu papel social e ser mais inclusiva, independe de ser uma empresa privada ou não. INDEPENDENTE!

Preto marginalizado

Por muitos anos, aceite ou não, a emissora de Silvio Santos se preocupou em agradar apenas o público considerado com menos recurso. E percebe-se pela grade atual, que a coisa ainda funciona de tal maneira e não dá sinais de mudança. Entra programa, sai programa, e a direção só abre espaço para profissionais de vídeo de pele branca.

O pior de tudo, com popularesco predominando na grade e o desleixo com a qualidade das atrações, a marginalização do povo periférico fica absurdamente cada vez mais gritante. O Casos de Família e o Programa do Ratinho são duas atrações super ultrapassadas que servem como exemplo.

De um lado Christina Rocha trata da maneira mais esdruxula e desastrosa, temas delicados de famílias em situação degradante de submundo. As mais diversas problemáticas da classe média baixa são colocadas em pauta toda tarde.

O preto e favelado é, sumariamente o protagonista do programa. Se for afeminado melhor ainda, porque gay escandalosa dá audiência, vira chamada “engraçadinha” na programação e gera meme nas redes sociais. E por este caminho tortuoso, lá se foram mais de dez anos que o formato é o mesmo.

Do outro lado, Carlos Massa, o Ratinho, expõe ao ridículo sua plateia em brincadeiras ultrapassadas de perguntas e respostas, escancarando e ‘celebrando” a ignorância de um povo que carece do básico, que é a educação. E tudo sempre termina em risadaria e vergonha alheia.

E como não falar dos dramalhões exportados da rede mexicana Televisa? As novelas líderes de audiência entre os próprios programas do SBT mostra um México inexistente e uma branquitude totalmente ilusória. Quem já viajou para o país de Thalía sabe muito bem que a realidade lá é bem outra.

Ator cubano René Munõz em Marimar (Reprodução: Televisa S.A.)

Embora a parcela de negros seja bem pequena, nas pesquisas os números nem sempre condizem com a realidade, uma vez que para os mexicanos é vergonhoso se reconhecer mais moreno ou mais indígena. Quanto mais escura sua pele, mais marginalizado você será e mais distante do acesso a tudo você estará. Nada disso é retratado nas novelas.

Em 1994, durante uma entrevista no lançamento da novela Os Ricos Também Choram, acredite, o antigo e já falecido dono da Televisa, Emilio Azcarraga Milmo, disse que o México é um país de gente “ferrada”. E que não vai deixar de ser.

Entre outras declarações, ele ainda disse que a televisão tem uma obrigação levar diversão para esse povo e tirá-los da triste realidade em que vivem. Indo mais além, Milmo afirmou que o povo mexicano quer ver um conto de fadas na televisão, porém, contada por gente branca. O povo “ferrado” não quer ver gente “ferrada” chorando e sim gente rica chorando.

A coluna não pode encerrar o texto sem citar o episódio mais imoral e lamentável da história do SBT, que foi a contratação de Marcão do Povo, em 2017, depois de sua demissão da Record TV após se referir à cantora Ludmilla como “pobre macaca”. Em comunicado enviado à imprensa, a emissora disse que isso era um problema pessoal dele, ocorrido antes de sua chegada à emissora.

Recentemente Luiz Alano, ex-SporTV, acertou com o canal e assumiu o SBT Sports, levado ao ar todo domingo, às 7h30 da manhã. No Fofocalizando, atração com mais de cinco anos no ar e que em seu atual quadro reúne cerca de SETE apresentadores brancos, surgiu Bruno Gabasi, profissional de produção que mal foi apresentado direito ao público. Belo tratamento, não?

[Atualização] Leitores da coluna nos alertou sobre outros nomes importantes, não citados na matéria: Jean Paulo Campos (ator), Canarinho (comediante) e Juliana Oliveira (comediante).

E você, alguma vez já ouviu dizer que uma imagem diz muito mais que qualquer palavra? pois é, basta sintonizar.

Publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio

Em Alta

Carregando...

Erro ao carregar conteúdo.

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio